Com o apoio de um dos filhos do presidente Jair Bolsonaro, um documentário que justifica o golpe militar de 1964 no Brasil foi um dos vídeos mais assistidos no YouTube esta quarta-feira (3), logo após a sua exibição nas salas de cinema Cinemark ter gerado polémica.

"1964: Brasil entre armas e livros", com mais de duas horas de duração, concentra-se nas ações de guerrilhas de esquerda nos anos 1960 e defende a tese de que o golpe militar que levou o Brasil a 21 anos de ditadura foi consequência da "ameaça comunista" representada por esses grupos no contexto da Guerra Fria.

O 55º aniversário do golpe, no domingo passado, pôs o dedo na ferida que continua aberta na sociedade brasileira, sobretudo após Bolsonaro estimular as Forças Armadas a comemorar a data nos quartéis.

A longa-metragem, da produtora Brasil Paralelo, chegou a ser exibida no domingo em salas alugadas de São Paulo, Brasília e Belo Horizonte. Após protestos nas redes sociais, a rede Cinemark afirmou que o documentário foi exibido por "erro".

"Por regra, não autorizamos nos nossos complexos a divulgação de comunicação partidária , bem como eventos de cunho político", explicou.

Os seus criadores publicaram o vídeo na terça-feira no YouTube e, até à tarde de quarta-feira, foram registadas mais de 1.831.000 visualizações.

O deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, promoveu o documentário na sua conta do Twitter, onde conta com 1,3 milhão de seguidores.

Embora os seus criadores afirmem que o filme não defende a ditadura, o seu conteúdo coloca em dúvida que a tortura tenha sido usada pelo Estado contra opositores e a classifica como desvios de indivíduos "psicopatas" pertencentes a ambos os lados.

"O filme do Brasil Paralelo não traz novidades, tem forte cunho antiacadémico e algumas incorreções factuais", disse à agência AFP o professor de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Carlos Fico.

"As ações armadas urbanas e a guerrilha do Araguaia [as iniciativas da esquerda brasileira que se intitulava revolucionária] foram pouco expressivas. Foram rapidamente reprimidas pelo aparato clandestino de repressão que a ditadura criou", apontou.

"O Estado brasileiro poderia, com facilidade, ter combatido as ações armadas urbanas sem recorrer a sistemas clandestinos de repressão, à tortura e aos assassinatos", acrescentou.

Apesar de se declararem contrários a qualquer ideologia, os membros do Brasil Paralelo entrevistaram para esta e outras das suas produções professores, filósofos e formadores de opinião com um perfil ideológico conservador, como o escritor Olavo de Carvalho, considerado o "guru" ideológico do governo Bolsonaro.

Segundo a Comissão Nacional da Verdade, durante a ditadura (1964-1985) houve 434 assassinatos e desaparecimentos cometidos por órgãos de repressão estatais, assim como centenas de detenções arbitrárias e opositores torturados.

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