"Cafarnaum" é uma epopeia social e realista que oferece uma imagem explosiva da infância maltratada no Líbano, mas também do tormento dos marginalizados. O filme foi aclamado em Cannes, onde ganhou o prémio do júri em 2018.

Agora, a cineasta está na corrida para ganhar o Óscar de melhor filme estrangeiro este domingo, e espera que isso ajude a mudar as coisas no Líbano.

"O debate já está em cima da mesa, e era o meu objetivo criar esse impacto, abrir o debate", disse Labaki em entrevista à AFP no seu escritório em Beirute.

Com 45 anos, é a cineasta libanesa mais reconhecida internacionalmente do momento, ao lado da sua compatriota Ziad Doueiri. E está decidida a fazer bom uso desse estatuto de celebridade. "Sinto que é um dever, não só uma possibilidade", diz.

"É o que vamos começar a fazer: mostrar o filme ao governo, organizar mesas redondas com juízes e advogados", diz. "Talvez tenha uma grande influência, talvez não, mas temos que tentar", afirma.

O filme, a sua terceira longa-metragem, já mudou a vida dos seus protagonistas.

"Cafarnaum" segue os passos de Zain, que rompe a relação com os seus pais quando eles decidem casar a sua irmã Sahar, de 11 anos. O menino foge e encontra refúgio com Rahil, uma imigrante etíope sem documentos que lhe confiará o seu bebé Yonas, enquanto trabalha. Até que um dia a mulher desaparece.

Refugiados sírios, imigrantes, mas também libaneses que vivem sem documentos: o trabalho de Labaki aborda vários temas delicados num país castigado pelas desigualdades sociais.

Ficção ou realidade?

Os paralelos entre o guião e a vida real dos personagens são inquietantes. Assim, as duas mães de Yonas, a verdadeira e a do filme, foram presas durante o filme, enquanto filmavam as cenas que mostravam Zain e Jonas vagueando pelas ruas de Beirute.

No filme, Zain sonha em escapar da miséria e em mudar-se para a Suécia.

O jovem refugiado sírio que interpreta o papel, Zain Al-Rafeea, está hoje com a sua família na Noruega, onde conseguiu asilo político. E agora vive em uma casa perto do mar.

"Não sei porque isso tudo aconteceu, talvez porque o argumento era inspirado na realidade que tinha que acontecer", diz Labaki.

Desde o lançamento, "Cafarnaum" acumulou nomeações: nos César franceses, nos Óscares, nos Globos de Ouro e nos Bafta britânicos.

Para alguns detratores, o filme peca pelo excesso, mas para Labaki a moderação não é parte da sua cultura.

"É como se as pessoas, especialmente os críticos, quisessem que o cinema de todo o mundo fosse parecido", diz. "Deixem que cada país aporte sua própria identidade", acrescentou.

"É realmente doloroso ouvir coisas como 'poverty porn' (pornografia da miséria) ou até 'manipulação emocional'", lamenta. "Não há muita imaginação neste filme, tudo o que há é realidade", diz a cineasta.

Como ativista, ela quer mobilizar os espectadores e provocar a ação de quem toma as decisões, num país onde uma grande parte da população denuncia a corrupção da classe política.

As suas reuniões com o público dão-lhe ânimo: "Mudou-me para sempre. Não vejo da mesma maneira o menino que encontro todos os dias debaixo da ponte". "Quero fazer algo" ou "como posso ajudar?", são algumas das coisas que pensa, diz.

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