Um filme elogiado por ser um marco da diversidade e representatividade está agora no centro de uma situação de discriminação muito comum em Hollywood: a disparidade de salários.

"Crazy Rich Asians" passou diretamente para vídeo em Portugal (como "Asiáticos Doidos e Ricos"), mas foi um fenómeno cultural nas salas de cinema americanas no verão de 2018.

Além de se tornar um grande sucesso de bilheteira (239 milhões de dólares a nível mundial com um orçamento de 30 milhões), a comédia romântica foi a primeira produção americana de um grande estúdio de Hollywood com um elenco asiático em 25 anos, desde "O Clube da Sorte e da Alegria", catapultando as carreiras de Constance Wu, Henry Golding, Gemma Chan e Awkwafina.

Segundo o The Hollywood Reporter (THR), o estúdio propôs 110 mil dólares à argumentista Adele Lim para regressar e adaptar os outros livros de Kevin Kwan, mas ofereceu ao colega Peter Chiarelli 800 mil a um milhão de dólares.

Lim não aceitou e bateu com a porta no outono. O estúdio Warner Bros procurou alternativas, mas acabou por insistir novamente em fevereiro com nova proposta mais próxima da do colega, que se ofereceu para dividir o seu salário, mas Lim manteve a recusa.

Por essa razão e pelas agendas ocupadas dos atores, é improvável que a rodagem do novo filme comece antes do final de 2020.

Sem confirmar os valores, a co-argumentista explicou que "o Pete tem sido incrivelmente gracioso, mas o que eu ganho não devia depender da generosidade do argumentista branco", explicou ao THR.

A disparidade nas propostas foi atribuída à falta de experiência de Lim no cinema antes de "Crazy Rich Asians": o estúdio aplicou o sistema de "quotes", uma espécie de cotação dos profissionais em Hollywood baseada nos salários (experiência) de trabalhos anteriores.

Como explicou a Vanity Fair num artigo em fevereiro de 2018, a propósito da polémica de Mark Wahlberg receber 1,5 milhões de dólares e Michelle Williams menos de mil dólares por dez dias de refilmagens de "Todo o Dinheiro do Mundo", uma das funções dos agentes é precisamente aumentar a "quote" dos seus clientes, mas este sistema ajuda a perpetuar a diferença salarial sistémica em Hollywood: a Warner explicou aos representantes de Lim que abrir uma exceção estabeleceria um precedente problemático na indústria.

Lim, que tem mais de 20 anos de trabalho a escrever para televisão, explica que a pouca "experiência" antes da comédia romântica se deve a falta de oportunidades.

"Se não conseguisse equidade salarial após 'Crazy Rich Asians', não consigo imaginar como seria para qualquer outra pessoa, dado que o padrão do que valemos é ter 'quotes' de filmes anteriores, pelo que mulheres de cor nunca seriam [contratadas]. Assim não há uma forma realista de conseguir verdadeira equidade", revelou na declaração ao THR.

Lim também se queixa de outra faceta mais geral de Hollywood: as mulheres e principalmente as pessoas de cor são tratadas como "condimentos", ou seja, são contratadas para dar maior autenticidade cultural aos argumentos e não para fazer contribuições verdadeiramente significativas às histórias.

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