«Se o Estado Português apostar nessa estratégia eu acho que o Sr. primeiro-ministro e o Sr. ministro Paulo Portas devem apostar na cidade do Porto. Lisboa já tem 40 por cento do turismo nacional, o Porto tem oito por cento e está numa fase de afirmação de imagem internacional. Seria uma atitude centralista insuportável que o Estado fosse financiar um filme do Woody Allen feito em Lisboa para promover turisticamente o país», considerou o candidato.

Luís Filipe Menezes disse ter ficado surpreendido com a manchete de terça-feira do jornal «i» que avançou que «Portas se reuniu com equipa de Woody Allen para negociar um filme em Lisboa», por ele próprio andar já há algum tempo a fazer diligências para que Woody Allen fizesse um filme sobre o Porto, à semelhança do que fez em Paris e em Roma.

«Empresários e jornalistas conhecidos da região com boas relações com os EUA e com realizadores americanos têm feito contactos nesse sentido, a propósito de convites para uma festa de homenagem a Manoel de Oliveira no dia 09 de dezembro. O próprio representante de Portugal na União Europeia de cinema, Miguel Cadilhe Júnior, que é do Porto, está a apoiar o processo», afirmou.

Segundo Menezes, «têm existido conversas, não existe ainda nada de concreto», mas a questão tem sido analisada como «um cenário possível».

«Evidentemente que isto tudo é muito mais viável se o estado Português estiver envolvido. A fazer-se, eu como presidente da câmara do Porto não exijo, mas reivindico que se olhe para isto com sentido de justiça e que a fazer-se se faça no Porto», frisou.

Luís Filipe Menezes admitiu que, caso vença as eleições de domingo, irá falar com Paulo Portas, por acreditar que o ministro será «sensível» aos seus argumentos.
«Seria uma atitude centralista insuportável que o Estado fosse financiar um filme do Woody Allen feito em Lisboa para promover turisticamente o país. Eu até acho bem que se houver recursos para isso, se avance com essa ideia, mas que se faça no Porto e Douro ou Porto e cidades médias do norte, como Guimarães e Braga. Não ficamos nada tristes em repartir essa parceria com Guimarães e com Braga que têm parcelas classificadas como Património da Humanidade ou com o Douro que é Património da Humanidade», acrescentou.

Associação de Realizadores diz que financiar Woody Allen «soa a provocação»

O realizador António-Pedro Vasconcelos afirmou hoje à Lusa que seria bom ter Woody Allen a filmar em Portugal, mas considerou que os contactos feitos pelo Governo nesse sentido «soam a provocação» perante a atual crise no setor. O cineasta, e presidente da Associação de Realizadores de Cinema e Audiovisual (ARCA), questionou que dinheiro seria investido numa produção do realizador norte-americano em território português e que garantias seriam dadas na escolha, por exemplo, de técnicos portugueses.

«Porque não ter o Woody Allen a filmar em Lisboa? Acho bem, apesar dos últimos filmes dele terem sido um desastre. Acho que ia atrair turistas, era bom desse ponto de vista. O que é chocante é que estejamos perante uma ameaça de não termos financiamento no cinema português e o país estar a engalanar-se para receber um realizador estrangeiro», criticou.

Woody Allen, 77 anos, já filmou nos últimos anos em Barcelona, Londres, Paris e Roma, tendo regressado aos Estados Unidos para rodar «Blue Jasmine», atualmente nos cinemas. O cineasta tem sido cobiçado para rodar um próximo filme fora dos Estados Unidos, sobretudo por causa do impacto turístico em cada cidade escolhida.
No ano passado, disse numa entrevista ao canal TVI24 que para filmar em Lisboa bastaria que o convidassem e que lhe arranjassem financiamento.

Em agosto, o presidente da câmara de Lisboa, António Costa, afirmou numa entrevista ao semanário «Sol» que gostaria de ver Woody Allen a filmar na capital portuguesa e que têm sido feitos contactos com a produção do realizador.

O Governo português confirmou na terça-feira que no ano passado foram feitos contactos pelo então ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE), Paulo Portas, com a equipa do cineasta, «para analisar em concreto o interesse e as condições para fazer um filme em Lisboa». Tratou-se, na altura, de uma iniciativa conjunta do MNE, da Câmara Municipal de Lisboa e do Turismo de Portugal. «Era uma forma extraordinária de promoção de Portugal e de Lisboa em concreto», disse à Lusa fonte do gabinete do vice-primeiro-ministro, Paulo Portas.

Para António-Pedro Vasconcelos, todo este empenho «cai mal e soa a provocação» aos produtores e realizadores portugueses, tendo em conta que «é preciso resolver os problemas com a nova lei do cinema».

O realizador, e a associação que preside, tem-se oposto ao princípio que rege a legislação, considerando que os agentes do setor envolvidos deviam ter sempre obrigações de investimento e não pagamento de taxas ao Estado. «Não deve ser o Estado a arrecadar receitas de taxas para depois as distribuir nos apoios a filmes selecionados por critérios de gosto», disse.