Quantas figuras haverá na história do cinema que tenham dado tanta alegria a tantos milhões de espetadores ao longo de tanto tempo?
Gene Kelly, em paralelo com
Fred Astaire, é o símbolo máximo do cinema musical norte-americano, cuja idade de ouro, entre os anos 30 e 50, tem injetado doses massivas de felicidade em espetadores de todo o planeta até aos dias de hoje.

Além de ator, cantor e dançarino, Kelly foi também coreógrafo e co-realizador, e os filmes e momentos que deixou na memória coletiva transformaram-no numa das figuras mais ímpares da história do cinema. Gene estreou-se na Broadway no final dos anos 30 e em 1940 atingiu o estrelato com «Pal Joey». Dois anos depois estreou-se no cinema ao lado de
Judy Garland em
«O Prémio do Teu Amor». Em
«A Festa dos Ídolos», de 1943, começou a fazer as suas próprias coreografias e deixou logo para a posteridade a dança com uma esfregona, feito que repetiu o ano seguinte em
«Modelos», ao dançar com o seu próprio reflexo.

O super-estrelato chegou em 1945, no primeiro de três filmes ao lado de Frank Sinatra. Em
«Paixão de Marinheiro», Kelly superou-se numa série de números impressionantes, incluindo um que ficaria para a história, em que dançou com um desenho animado, o rato Jerry.

Daí para a frente sucederam-se os clássicos, quase sempre realizados por
Vincente Minnelli ou
Stanley Donen. O primeiro dirigiu o incompreendido
«O Pirata dos Meus Sonhos»,
«Um Americano em Paris» (que lhe valeu um Óscar especial além do Óscar de Melhor Filme, e, além do mítico bailado final de 16 minutos ao som de Gershwin, contém ainda a dança na margem do Sena ao som de «Our Love is Here to Stay») e
«Brigadoon - A Lenda dos Beijos Perdidos», uma história de amor e fantasia numa Escócia mitificada.

Com o segundo, co-realizou os clássicos
«Um Dia em Nova Iorque», em que saiu do estúdio e levou o musical para as ruas da cidade,
«Serenata à Chuva», por tanta gente considerado o melhor musical de sempre, e
«Dançando nas Nuvens», que muito afirmam ser uma das despedidas do musical clássico, uma fita de tom mais soturno que ainda assim consegue um nível insuitado de alegria ao colocar Gene Kelly a dançar com patins.

Mas houve mais:
«As Mil Apoteoses de Ziegfeld», em que surgiu no número «The Babbitt and the Bromide» a dançar com Fred Astaire,
«Festa no Campo», com um numero em que dança com uma folha de papel, ou
«A Linda Ditadora», realizado por
Busby Berkeley, são também refer~encias, bem como
«Os Três Mosqueteiros», um filme de capa e espada não musical em que interpreta um atlético D'Artagnan, e o arrojadíssimo
«Convite à Dança», que também realizou, uma fita sem diálogos e unicamente dançada.

Com o musical em declínio, Kelly ainda se manteve activo nos anos 60, a participar no musical francês
«As Donzelas de Rochefort» ou a realizar
«Hello, Dolly!», mas a magia já não era a mesma.

Porém, os filmes em que participou na era dourada nunca saíram de moda, e renasceram a partir da década de 70 graças aos dois filmes compilação que foram
«Isto é Espectáculo», no segundo dos qais voltava a dançar com Astaire.

Gene Kelly, o homem comum VS Fred Astaire, o gentleman

Qualquer cinéfilo amante de musicais já se colocou esta pergunta de tempos a tempos: quem era melhor, Fred Astaire ou Gene Kelly? Dado o abissal legado de cada um deles ao cinema, a resposta dependerá sempre dos gostos pessoais de cada pessoa, mas há características específicas a cada um que podem ajudar à decisão.

Fred Astaire é o mais velho e, em termos fundadores, o mais importante. Já era uma imensa estrela dos palcos antes de chegar ao cinema no início da década de 30 e foi ele que implementou o registo de musical que a partir daí se tornaria a norma: em vez de filmes com dezenas de dançarinos em coreografias elaboradas, ele defendeu que o dançarino deveria surgir sozinho (ou em par) filmado de corpo inteiro e sem cortes («ou dança a câmara ou danço eu», foi uma das suas frases célebres).

Foi esse o modelo que vingou e Gene Kelly, ao chegar ao cinema no início dos anos 40, também alinhou por aí. Kelly tinha acabado de ter sucesso na Broadway com o musical «Pal Joey» e deu aos musicais uma energia diferente, com maior ênfase no bailado e em personagens do dia a dia.

Se Fred Astaire surgia sempre em ambientes de luxo e de cartola e smoking («Top hat, white tie and tails», como dizia uma música), Kelly aparecia em mangas de camisa ou fato e marinheiro. Era a classe operária a assumir a preponderância face à elite, e o públicou apaixonou-se tanto por ele como já o tinha feito por Astaire. Kelly somava ainda ao talento de bailarino o de realizador, e os seus filmes ganharam aos de Astaire em modernidade, só que ambos deixaram um legado tão importante na cultura do século XX que escolher entre eles é quase impossível. Felizmente, ninguém tem de o fazer, uma vez que nenhum deles saiu de moda e os filmes de ambos continuam hoje a ser tão vistos e admirados como sempre o foram.

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