Os Globos de Ouro têm fama de serem imprevisíveis e voltaram a cumprir este ano, guardando mesmo para o fim da cerimónia a grande surpresa: "Bohemian Rhapsody" foi eleito o Melhor Filme na categoria de drama.

O biopic sobre Freddie Mercury e a ascensão dos Queen tinha duas nomeações e fez o pleno no domingo à noite em Beverly Hills (madrugada de segunda-feira em Portugal): Rami Malek foi votado o melhor ator.

"Obrigado a Freddie Mercury por me dar a alegria de uma vida" disse Rami Malek, ao agarrar a estatueta que o distinguiu num filme do produtor e realizador norte-americano Bryan Singer, que acabou excluído de todos agradecimentos: ele foi despedido pelo estúdio e substituído por Dexter Fletcher a poucas semanas do fim da rodagem por comportamento alegadamente pouco profissional.

Pelo caminho ficou o grande favorito "Assim Nasce Uma Estrela", que tinha cinco nomeações e apenas conseguiu levar ao palco Lady Gaga para receber o prémio de Melhor Canção ("Shallow").

Os prémios entregues pelos mais de 90 membros da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood funcionam mais como barómetro e não um indicador claro do que acontecerá nos Óscares, cuja votação para escolher os nomeados começa esta segunda-feira.

Ainda assim, são o primeiro evento com impacto nacional e internacional da intensa temporada que irá culminar nos prémios da Academia a 24 de fevereiro e por isso não faltaram muitas estrelas em campanha.

QUEM PASSOU PELA PASSADEIRA VERMELHA:



"Green Book" foi consagrado como o Melhor Filme de Comédia ou Musical e acabou por ser o mais premiado da noite, acumulando ainda as distinções pelo argumento e do ator secundário Mahershala Ali, que interpreta o pianista negro nos Estados Unidos dos anos 1960 que contrata um segurança italo-americano como motorista (Viggo Mortensen) para o acompanhar uma digressão pelo Sul racialmente dividido.

O grande derrotado na categoria foi "Vice", o retrato sarcástico do antigo vice-presidente americano Dick Cheney, que liderava a lista com seis nomeações e ficou apenas a consolação do importante prémio para Christian Bale como Melhor Ator em Comédia ou Musical.

Um ano depois do discurso de Oprah Winfrey contra "os homens poderosos e brutais", em pleno desenvolvimento do movimento #MeToo, esta edição não ficou marcada por comentários políticos, pelo menos até Christian Bale subir ao palco.

"O que acham? Mitch McConnell a seguir?", brincou o ator nascido no País de Gales, referindo-se ao líder da maioria do Senado norte-americano e ao seu desejo de continuar a interpretar "cretinos sem carisma".

"Obrigado a Satanás por me dar inspiração para este papel”, acrescentou.

No caso de "Roma" não houve surpresas: a homenagem cinematográfica de Alfonso Cuarón à sua infância na Cidade do México na década de 1970, levou os prémios de melhor filme estrangeiro e realização.

O prémio de Melhor Animação para "Homem-Aranha: No Universo Aranha" também colocou fim ao domínio quase total da Disney na categoria.

Esperadas eram as distinções para Olivia Colman, melhor atriz em Comédia ou Musical e a de Regina King como secundária por "Se Esta Rua Falasse".

Um dos momentos da noite aconteceu quando Glenn Close recebeu o prémio de Melhor Atriz e recordou que provavelmente o seu filme, sobre a esposa de um Nobel da Literatura, demorou 14 anos a chegar ao cinema porque se chamava "A Mulher", colocando a seguir o público em pé uma segunda vez (e algumas colegas a chorar) ao recordar a desigualdade entre géneros.

"Estou a pensar na minha mãe, que realmente se submeteu ao meu pai toda a sua vida e nos seus oitentas me disse que sentia que não tinha conseguido nada. E isso estava tão errado. O que senti de toda esta experiência [de fazer o filme] é que as mulheres, somos educadoras, é isso o que se espera de nós. Temos os nossos filhos. Temos os nossos maridos se tivermos sorte, e os nossos parceiros, o que for. Mas temos de encontrar satisfação pessoal. Temos de seguir os nossos sonhos. Temos de dizer 'Consigo fazer aquilo e devo ter o direito a fazer aquilo'".

"The Americans" tem mais encanto na hora da despedida

Nas categorias para televisão e streaming,  a muito elogiada pelos críticos mas pouco premiada ao longo da carreira "The Americans", sobre a vida de dois espiões russos nos EUA dos anos 1980, foi eleita a Melhor Série em Drama, na sexta e última temporada.

A minissérie "American Crime Story: O Assassinato de Gianni Versace" (FX) repetiu a vitória dos Emmys em setembro e conquistou ainda um prémio para o ator Darren Criss.

Também com dois prémios ficou "The Kominsky Method" (Netflix), para Melhor Série de Comédia e Ator para Michael Douglas, cumprindo a tradição dos Globos de escolher "outsiders" e novidades que também beneficiou "Bodyguard" (BBC e Netflix), "Escape at Dannemora" (Showtime) e "Killing Eve" (BBC America).

A única premiada em televisão repetente do ano passado por Rachel Broshnahan, votada Melhor Atriz em Comédia ou Musical por "The Marvelous Mrs. Maisel".

Homenagem à diversidade marca a cerimónia

Um ano após o preto ter unido todos no apoio ao movimento contra os assédios sexuais, a noite de domingo teve um registo mais descontraído em que a mensagem mais forte foi a da tolerância e da evolução da indústria em termos de representatividade e diversidade.

Sandra Oh, que foi a anfitrião com Andy Samberg, terminou o monólogo num tom mais emocional, explicando o que a levou a aceitar o cargo: "Para olhar para este público e testemunhar este momento de mudança. E não me estou a enganar. No próximo ano pode ser diferente, mas agora este momento é real. Confiem em mim, é real. Porque vos vejo[...], todas estes rostos das mudanças. E agora, também irá toda a gente".

Fazendo jus à reputação de simpatia que têm em Hollywood, as estrelas de "Killing Eve" e "Brooklyn Nine-Nine" cumpriram a promessa de se afastar dos temas políticos e manter o tom positivo com piadas principalmente inofensivas.

Começando por informar que a noite era de diversão, dar alguns prémios e que "uma pessoa sortuda" entre os presentes iria apresentar os Óscares, garantiram que ficaram com os Globos porque eram "as únicas duas pessoas que restam em Hollywood que não se envolveram em sarilhos por dizer alguma coisa ofensiva".

Em contraste com os estilos de Ricky Gervais, Tina Fey & Amy Poehler, Jimmy Fallon e Seth Meyers, os anfitriões disseram que iam arrasar os presentes e acabaram a fazer elogios "embaraçosos", como dizer a Bradley Cooper e Michael B. Jordan que eram "sexy".

O momento mais "tenso" acabou por envolver Jim Carrey, nomeado pela série "Kidding" mas "apanhado" sentado entre as estrelas de cinema: acabou escoltado por um segurança para a secção de televisão, mais afastada do centro da sala.

Discursos interrompidos pela música? A "tática" foi continuar a falar

Apesar dos notórios esforços para encurtar os textos dos anfitriões e apresentadores, a cerimónia passou em cerca de 20 minutos as três horas previstas pela organização dos Globos e o canal NBC.

Para o excesso contribuiram vários discursos dos premiados e mesmo quando a orquestra começava a tocar a música, esta parecia uma recomendação para os premiados se despacharem e não uma imposição.

Por exemplo, Regina King, Melhor Atriz Secundária em Filme por "Se Esta Rua Falasse", persistiu que a música parou, euqnato Peter Farrelly, ao receber o prémio pelo argumento de "Green Book", parou o discurso e começou a berrar para a música parar, o que acabou por acontecer.

Intocáveis foram os discursos das lendas que receberam prémios de carreira.

Carol Burnett, a primeira a receber o prémio de televisão que terá o seu nome, recordou como nasceu a paixão pela televisão e como foi trabalhar nela no momento certo, reconhecendo que o programa a que deve a sua maior fama, "The Carol Burnett Show" (1967-1978), não seria agora possível porque os custos seriam proibitivos e os grandes canais também não querem arriscar por causa de tanta concorrência do cabo.

Já Jeff Bridges, muito ao estilo da sua personagem em  "O Grande Lebowski", distribuiu uma longa lista de agradecimentos, evocando vários filmes e praticamente todos os realizadores com quem trabalhou, fazendo analogias para declarar que é possível causar um impacto no mundo.

O PALMARÉS

CINEMA

MELHOR FILME (DRAMA)


Assim Nasce Uma Estrela
Black Panther
BlacKkKlansman: O Infiltrado
If Beale Streat Could Talk

MELHOR FILME (COMÉDIA OU MUSICAL)


Crazy Rich Asians
A Favorita
O Regresso de Mary Poppins
Vice

MELHOR REALIZAÇÃO

Bradley Cooper ("Assim Nasce Uma Estrela")
Peter Farrelly (" Green Book - Um Guia Para a Vida")
Spike Lee ("BlacKkKlansman: O Infiltrado")
Adam McKay ("Vice")

MELHOR ATOR (DRAMA)

Bradley Cooper ("Assim Nasce Uma Estrela")
Willem Dafoe ("At Eternity's Gate")
Lucas Hedges ("Boy Erased")
John David Washington ("BlacKkKlansman: O Infiltrado")

MELHOR ATRIZ (DRAMA)

Lady Gaga ("Assim Nasce Uma Estrela")
Nicole Kidman ("Destroyer")
Melissa McCarthy ("Can You Ever Forgive Me?")
Rosamund Pike ("Uma Guerra Pessoal")

MELHOR ATOR (COMÉDIA OU MUSICAL)

Lin-Manuel Miranda (“O Regresso de Mary Poppins”)
Viggo Mortensen (“Green Book - Um Guia Para a Vida”)
Robert Redford (“The Old Man & the Gun”)
John C. Reilly (“Stan & Ollie”)

MELHOR ATRIZ (COMÉDIA OU MUSICAL)

Emily Blunt (“O Regresso de Mary Poppins”)
Elsie Fisher ("Eighth Grade")
Charlize Theron ("Tully")
Constance Wu ("Crazy Rich Asians")

MELHOR ATOR SECUNDÁRIO

Timothee Chalamet ("Beautiful Boy")
Adam Driver ("BlacKkKlansman: O Infiltrado")
Richard E. Grant ("Can You Ever Forgive Me?")
Sam Rockwell ("Vice")

MELHOR ATRIZ SECUNDÁRIA

Amy Adams ("Vice")
Claire Foy ("O Primeiro Homem na Lua")
Emma Stone ("A Favorita")
Rachel Weisz ("A Favorita")

MELHOR ARGUMENTO

Roma
A Favorita
If Beale Street Could Talk
Vice

MELHOR FILME ESTRANGEIRO

Girl (Bélgica)
Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões (Japão)
Cafarnaum (Líbano)
Never Look Away (Alemanha)

MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO

The Incredibles 2: Os Super-Heróis
Ilha dos Cães
Mirai
Ralph vs Internet

MELHOR BANDA SONORA ORIGINAL

Um Lugar Silencioso
Ilha dos Cães
Black Panther
O Regresso de Mary Poppins

MELHOR MÚSICA ORIGINAL

All the Stars” (“Black Panther”)
Girl in the Movies (“Dumplin’”)
Requiem For A Private War ("Uma Guerra Pessoal")
Revelation (“Boy Erased”)

TELEVISÃO

MELHOR SÉRIE (DRAMA)

Bodyguard
Homecoming
Killing Eve
Pose

MELHOR ATOR (SÉRIE DRAMA)

Jason Bateman (“Ozark”)
Stephan James (“Homecoming”)
Billy Porter (“Pose”)
Matthew Rhys (“The Americans”)

MELHOR ATRIZ (SÉRIE DRAMA)

Caitriona Balfe ("Outlander")
Elisabeth Moss ("The Handmaid’s Tale")
Julia Roberts ("Homecoming")
Keri Russell ("The Americans")

MELHOR SÉRIE (COMÉDIA)


Barry
Kidding
The Good Place
The Marvelous Mrs. Maisel

MELHOR ATOR (COMÉDIA OU MUSICAL)

Sascha Baron Cohen ("This is America")
Jim Carrey ("Kidding")
Donald Glover ("Atlanta")
Bill Hader ("Barry")

MELHOR ATRIZ (COMÉDIA OU MUSICAL)


Kristen Bell ("The Good Place")
Candice Bergen ("Murphy Brown")
Alison Brie ("Glow")
Debra Messing ("Will & Grace")

MELHOR TELEFILME OU MINISSÉRIE


The Alienist
Escape at Dannemora
Sharp Objects
A Very English Scandal

MELHOR ATOR EM TELEFILME OU MINISSÉRIE

Antonio Banderas ("Genius: Picasso")
Daniel Bruhl ("The Alieniest")
Benedict Cumberbatch, Patrick Melrose")
Hugh Grant ("A Very English Scandal")

MELHOR ATRIZ EM TELEFILME OU MINISSÉRIE

Amy Adams ("Sharp Objects")
Connie Britton ("Dirty John")
Laura Dern ("The Tale")
Regina King ("Seven Seconds")

MELHOR ATOR SECUNDÁRIO EM SÉRIE, MINISSÉRIE OU TELEFILME

Alan Arkin (“The Kominsky Method”)
Kieran Culkin (“Succession”)
Edgar Ramirez (“American Crime Story: O Assassinato de Gianni Versace”)
Henry Winkler (“Barry”)

MELHOR ATRIZ SECUNDÁRIA EM SÉRIE, MINISSÉRIE OU TELEFILME

Alex Bornstein ("The Marvelous Mrs. Maisel")
Penelope Cruz ("American Crime Story: O Assassinato de Gianni Versace")
Thandie Newton ("Westworld")
Yvonne Strahovski ("The Handmaid’s Tale")

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