O filme “O Cordeiro de Deus”, de David Pinheiro Vicente, em competição no IndieLisboa, é uma “reconstrução” de histórias e memórias de infância do pai do realizador, no sítio onde elas aconteceram, a vila da Soalheira, no Fundão.

“Quando me propuseram fazer este filme, por acaso era uma altura em que andava a recordar algumas histórias contadas pelo meu pai sobre a sua infância. Ele é da Soalheira e este filme é uma espécie de interpretação minha dessas histórias, feita na própria casa onde elas se passaram, a casa onde ele cresceu, que está semiabandonada. Fui para lá e reconstruí essas histórias à minha maneira. É uma espécie de tentativa de eu me relacionar com essas histórias daquele sítio e também, particularmente, da vida dele”, contou o realizador, de 24 anos, à agência Lusa.

A vida da Soalheira era um sítio onde David Pinheiro Vicente, açoreano da ilha Terceira, “costumava ir todos os anos no verão, quando era criança”, mas tinha “muita resistência em estar ali, por ser tão diferente”. “Uma vila da Beira Baixa, tipicamente portuguesa, muito quente [no verão], mas essa resistência foi passando e eu comecei a interessar-me muito por isso”, referiu.

Embora tenha por base memórias da infância do pai do realizador, “o filme não tem uma data muito definida, e tem uma série de elementos de uma espécie de imaginário pré-25 de Abril [de 1974] e também alguns elementos de hoje em dia”.

Tal como no filme anterior, “Onde o Verão Vai (Episódios da Juventude)”, realizado no final do curso da Escola Superior de Teatro e Cinema e que teve estreia mundial em 2018, no festival de cinema de Berlim, David Pinheiro Vicente não quis “definir bem no espaço e no tempo” a narrativa de “O Cordeiro de Deus”.

“Não quisemos assumir só ser de época, mas ter muitos desses elementos. É uma espécie de época ou país inventado, feita de todas essas minhas quer memórias quer histórias, vou misturando ambas e aparecem todos esses elementos”, disse.

Ao ver “O Cordeiro de Deus”, David Pinheiro Vicente sente que o filme “consegue mostrar um bocadinho que as pessoas não são movidas por um ímpeto moral ou pela sua dignidade ou porque têm um objetivo muito grande, como a noção de herói faz crer”.

“Acho que somos sempre movidos por desejos, perigos, pequenas traições, toda uma espécie de teia que vai acontecendo e que nos vai movendo, que nos vai movendo no dia-a-dia e nas pequenas coisas. Tudo o que se passa é isso, não são propriamente objetivos definidos, não há propriamente heróis, são pessoas que vão fazendo os seus dias e eu tento mostrar um pouco isso que está por trás”, referiu.

“O Cordeiro de Deus” é a segunda curta-metragem de David Pinheiro Vicente e a primeira que realiza fora do contexto escolar, o que fez com que se deparasse com o “contexto real” do trabalho de um realizador.

“Na escola temos os mesmos problemas criativos, mas não temos os mesmos problemas técnicos, parte de pré-produção e de pós-produção, de arranjar dinheiro e termos nós que lidar com esse tipo de dificuldade reais. E, por isso, claro que foi uma experiência muito impactante, porque houve esse embate com a realidade, mas também é só a partir daí que conseguimos começar a entender como é que funciona o mundo real”, partilhou.

Em relação à parte criativa, “todos os desafios de escrita e realização foram praticamente iguais”. “Apercebi-me que a escola criava uma ótima formação para quem quer ser realizador, porque dava essa liberdade”, considerou.

Já tudo o resto, “perceber como é que se arranja dinheiro, a espera que isso leva – no caso de ‘O Cordeiro de Deus’ foi bem sucedida, mas muitas vezes não é -, foi muito diferente, e também durante a rodagem estar a entender o custo real das coisas”.

Com a primeira ‘curta’ David Pinheiro Vicente chegou ao Festival de Cinema de Berlim e com a segunda ao de Cannes. “O Cordeiro de Deus” foi selecionado para a competição de curtas-metragens do festival francês, que não se realizou este ano devido à pandemia da covid-19.

A notícia da seleção do filme para Cannes teve para o realizador português um sentimento “agridoce”.

“Recebi a notícia de que o filme estava no festival durante a quarentena, mesmo no período mais difícil da pandemia, e não celebrei. Obviamente que estamos todos contentes, porque, ainda por cima, apesar de não haver festival, vai haver um evento em novembro [no qual será anunciada a Palma de Ouro de melhor curta-metragem] e o filme passará mesmo numa sala de cinema em Cannes”, partilhou.

Depois de Cannes e do IndieLisboa, onde o filme será exibido nos dias 28 de agosto e 03 de setembro, no Cinema São Jorge, “o percurso do filme está mais ou menos em aberto”.

“Eu tento concentrar-me no lado melhor, seja de que forma, o filme foi visto, o facto de ter ido para Cannes não só é um grande reconhecimento, mas faz com que mais pessoas o vejam, seja em que contexto depois ele passar”, disse.

Quanto ao futuro, David Pinheiro Vicente quer “continuar a fazer curtas, até porque é um desafio e um ótimo treino para quem quer fazer um filme maior”.

Para já, está a concluir a tese de mestrado em Filosofia/Estética, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, e “a escrever coisas, sempre a pensar no próximo projeto”.

A 17.ª edição do IndieLisboa, que deveria ter acontecido entre abril e maio, mas foi adiada devido à pandemia da covid-19, decorre de 25 de agosto a 05 de setembro.

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