Após 16 anos a residir no Brasil, o poeta Ricardo Reis regressa a Portugal, mais concretamente à cidade de Lisboa, em 1936, o que coincide com a morte de Fernando Pessoa.

Para quem se encontra familiarizado com este universo, apercebe-se automaticamente que Reis é uma entidade criada pelo poeta. Um heterónimo, fruto criativo e imaginado para ofuscar a sua perpétua solidão. Porém, ao contrário de outros heterónimos, Reis ficou fora do seu fim - uma data de morte -, o que foi a oportunidade que o Nobel da Literatura José Saramago encontrou para lhe atribuir a sua derradeira dignidade.

Assim nasceu “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, publicado em 1984, um hercúleo retrato de um Portugal a sucumbir às teias do fascismo, quer interior, quer exterior, tendo como vetor a cumplicidade de dois homens oriundos da mesma carne, Ricardo Reis e o espiritual Fernando Pessoa, que caminha entre os vivos até à sua completa desintegração.

A adaptação ao cinema chega às salas a 1 de outubro.

“O romance do Saramago tem uma capacidade notável de mostrar um ’36 muito parecido com a nossa atualidade. […]", destaca o realizador João Botelho em entrevista ao SAPO Mag.

"O livro foi um inventário de tudo o que acontecia em Portugal e no Mundo durante nove meses correspondentes a esse mesmo ano. Ele relatou as invasões da Etiópia, o surgimento do Nazismo, a Guerra Civil de Espanha, as inundações de meses em meses em Portugal, o fortalecimento do fascismo e até mesmo espetáculos e outras variedades. Isto tudo é visto hoje como uma espécie de retorno, por isso era mais do que importante falar sobre isso.”, esclarece.

Conhecido pela constante inspiração da literatura portuguesa nos seus filmes (“Os Maias”, “A Peregrinação”), João Botelho revela-nos que a escolha para levar esta obra ao cinema resultou da sua “contemporaneidade” e também pelo facto de, entre todos os trabalhos do escritor, este ser “o mais propício para o cinema.”

“E no fundo este filme é uma mensagem para os mais jovens: ‘leiam, simplesmente leiam’. Temos grandes obras da literatura e devemos ter, acima de tudo, orgulho naquilo que possuímos e que produzidos. E além do mais, é também uma mensagem sobre cinema. O de falar e abordar o cinema”, acrescenta.

“Acho que quando sou apoiado pelo Estado, tenho a responsabilidade de devolver um pouco esse serviço público. Para além do filme, há que ir às escolas, falar com os ‘miúdos’ sobre Saramago ou até de cinema. Os jovens de agora chegam mesmo a pensar que o cinema começou com o [Quentin] Tarantino … simplesmente não! Tem mais de 120 anos”, expande o realizador.

Para o papel central, o de Ricardo Reis, a escolha recaiu no veterano ator brasileiro Chico Diaz.

“Ele atribuiu a carnalidade que precisava para esta personagem. É um ator de corpo e inteiro”, elogia.

Já Fernando Pessoa é encarnado por Luís Lima Barreto, “uma escolha estranha” segundo Botelho, por um mero facto histórico: “na realidade, o que aconteceu é que o Fernando Pessoa quando morreu, com 47 anos, parecia que tinha 90. É claro que o Lima Barreto não tem 90 nem anda lá perto [risos], mas eu precisava de alguém semelhante àquele Pessoa, que era um Pessoa mais 'gordo', longe da imagem angulosa que popularizou.”

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Estes dois poetas encarnados, mas sem corpo, relembraram, e muito, ao realizador, o western norte-americano.

“No fundo, este filme é como a paixão de dois cowboys. Depois surgem umas mulheres lá pelo meio, e no final, um deles pega no outro e cavalgam até ao pôr-do-sol. Obviamente que algo com que gosto de brincar, apesar de levar a sério o Saramago, é com o cinema e com os seus géneros cinematográficos. Acho que o cinema não dá lições a não ser as de cinema. O resto é para inquietar, mas isso é o Saramago, não sou eu”, esclarece.

Questionado sobre se o Nobel da Literatura gostaria ou não de ver este fruto cinematográfico da sua criação, recordando o seu repúdio por “A Jangada de Pedra” (George Sluizer, 2002), a primeira adaptação de uma obra sua, João Botelho, confiante, frisa: “Julgo que se ele estivesse vivo, gostaria disto […] este é um filme que vive, essencialmente, da oralidade do Saramago.”

O realizador relembra que não reescreveu nada.

“Nem sequer podemos reescrever um grande escritor. Apenas utilizei os fragmentos que poderia adaptar com as circunstâncias e condições que tinha ao meu dispor; o preto-e-branco, o formato 36, o de transformar o Campo de Alcochete em Fátima, o de ter mil pessoas no Campo Pequeno e repetir umas quatro vezes para termos umas “quatro mil” naquele comício”, conclui.

VEJA O TRAILER "O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS".

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