Determinado a atribuir uma morte digna a uma entidade cujo fim foi esquecido, José Saramago concebeu o romance “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (em 1984) para abordar os últimos dias do célebre heterónimo de Fernando Pessoa, adaptado ao cinema por João Botelho e que estreia nas salas esta quinta-feira (1).

Em terras lusas, Ricardo Reis apercebe-se da morte de Fernando Pessoa (Luís Lima Barreto) que lhe surge, dias depois, como espírito errante. Tal como o seu poeta criador, o protagonista é também ele propício em projetar Ofélias, o tal interesse amoroso inalcançável no universo do poeta.

Esta Ofélia tem o nome de Marcenda, filha de um doutor nacionalista de Coimbra, que chega a Lisboa à procura de uma cura para o seu braço esquerdo paralisado.

Trata-se de uma personagem enigmática, um quanto metafórica, encarnada por Victoria Guerra, que falou com o SAPO Mag sobre esta jovem mulher, o filme e a sua pertinência, e ainda os seus novos projetos.

Como chegou a este projeto e como trabalhou a sua Marcenda em relação à transição do livro para o filme?

O convite chegou diretamente através de João Botelho. A literatura permite um universo interior que não é possível no cinema, por isso, a obra foi uma ferramenta fundamental. Para lá da narrativa, o cinema de Botelho é caracterizado por uma composição estética muito própria que ajuda a essa composição e trabalho de personagem. Neste caso, trabalhámos sobretudo a precisão da palavra para a transposição justa do texto de Saramago.

No processo criativo na construção desta Marcenda, recebeu moderação por parte de João Botelho ou o realizador deixou-a liberdade na criação? Existe uma provocação bem ao jeito de Saramago, esta, a do braço esquerdo de Marcenda estar paralisado e mesmo assim, ser o fascínio de Ricardo Reis, que por sua vez é politicamente indiferente.

É uma liberdade trabalhada em função do tipo de cinema que João Botelho faz, em função da luz, dos enquadramentos e da montagem. Há sempre um especial cuidado sobre a postura e a posição do ator em relação à câmara. No caso da Marcenda, houve uma direção específica em relação ao seu braço paralisado por causa da sua importância narrativa e simbólica.

João Botelho a dirigir os atores na rodagem de 'O Ano da Morte de Ricardo Reis'

Durante a inauguração da exposição do filme na Fundação Saramago, João Botelho mencionou que os anos 1930 descritos no livro estão cada vez mais perto da nossa atualidade. Concorda com este reparo? É pertinente uma adaptação de "O Ano da Morte de Ricardo Reis" nos tempos de hoje?

É cada vez mais pertinente. Concordo com essa proximidade política e social, a subida da extrema-direita no mundo é muito preocupante, mas sinto que é importante realçar uma diferença: o acesso à informação e à literatura é hoje, sobretudo para as gerações mais novas, muito mais simples do que era nos anos 1930. A literatura, tal como a história e, neste caso, específico o cinema, são fundamentais para evitar a repetição de erros já cometidos.

Também está envolvida no novo filme de Edgar Pêra – “The Nothingness Club” – que, à sua maneira, também integra este universo de Fernando Pessoa. E é curioso que interpreta Ofélia, que no filme do Botelho é, por si, uma projeção (alternativa) desta figura.

Sim, é verdade e é realmente muito curioso. Sinto-me privilegiada com este cruzamento de universos literários e cinematográficos. Entre Saramago e Fernando Pessoa, entre João Botelho e Edgar Pêra, cada um com a sua linguagem cinematográfica muito própria, o privilégio de poder trabalhar dois autores fundamentais da literatura portuguesa e que, tantas vezes, se dizem ser de difícil adaptação cinematográfica.

E o que pode dizer sobre novos projetos, a série da Netflix “Glória” e o novo filme da realizadora brasileira Laís Bodanzky “Pedro”?

A longa-metragem de Laís Bodanzky foi rodada há mais de um ano e retrata a vida privada de D. Pedro I e o seu regresso a Portugal, nove anos depois de proclamar a independência do Brasil. Em relação a “Glória”, não posso adiantar muito, apenas que é uma história sobre espionagem no final dos anos 1960, em plena Guerra Fria e partilhar o meu orgulho por Portugal estar a produzir finalmente uma série para a Netflix, e a minha felicidade por fazer parte do projeto e por poder trabalhar novamente com a SP Televisão e com o [realizador] Tiago Guedes.

VEJA O TRAILER "O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS".

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