Partindo do seu “Linha Vermelha”, o elogiado documentário onde reencontrava protagonistas dos acontecimentos à volta da ocupação da herdade ribatejana Torre Bela por parte de camponeses em 1975 e a sua organização em cooperativa (imortalizada num filme de Thomas Harlan), José Filipe Costa regressa com a encenação de uma falhada jornada de “doutrinadores” por terras desocupadas do Ribatejo.

Continuamos em 1975, o 25 de Abril continua fresco, mas depois da Revolução, muito trabalho existe por fazer. Um trio vindo da Europa do Norte aceita a missão de levar àqueles povoados novas ideias, conceitos e formas de luta, mas o fracasso é iminente. O sexo, esse território pantanoso, torna-se a causa de todo este desastre.

"Prazer, Camaradas!" chegou aos cinemas portugueses a 20 de maio, com dois anos de atraso, após a estreia no Festival de Locarno de 2019, na mesma edição que consagrou com o prémio principal “Vitalina Varela”, Pedro Costa. Mas o país de 2021 está mais dividido e politicamente conflituoso e, curiosamente, a voltar a discutir a relevância da propriedade privada.

O SAPO Mag conversou com o realizador sobre o seu filme, mas sobretudo as suas ideias e as órbitas política, social e sexual. Porque não há revolução social sem revolução sexual.

Começando com uma questão genérica, como surgiu a ideia? No fundo, não saiu do território em que trabalhou em “Linha Vermelha”.

A ideia vem do procedimento da “Linha Vermelha”, do qual tinha materiais ainda por usar e que pediam por um novo filme, relacionado com a sexualidade, afinidade e costumes. Eram sobretudo diários de uma casal de alfabetizadores, Eduarda Rosa e João Azevedo, que estiveram naquelas cooperativas e que abordavam a primeira experiência sexual das mulheres, para além de remexer em temas como casamento ou aborto, que Rosa contava que eram relatados durante a apanha da azeitona. O filme partiu daí, em conjunto com algumas histórias reveladas nos finais das reuniões no “Linha Vermelha”, que também estão ligadas a estas questões. Com isto, construí uma espécie de puzzle, uma premissa em que os estrangeiros traziam a revolução sexual para as cooperativas. Porque foi através desse choque cultural, a vinda de outros costumes e ideias, que se iriam contagiar as pessoas daquelas aldeias.

Esse território sexual é o núcleo do seu filme, mas "Prazer, Camaradas!” e “Linha Vermelha” debatem-se com um sonho ideológico que acaba por ser recebido com agrado, mas depois despachado como uma desilusão. Não estávamos preparados para este tipo de pensamentos?

De facto, estavam uma série de coisas na linha de interesse dessas pessoas que não se concretizaram e se chegaram, foram breves. Estou a lembrar-me sobretudo da ideia de família alargada, em que as crianças eram criadas por todos, pelo coletivo, e isso tinha como intuito desmoronar o conceito absoluto de família tradicional e heteronormativa. Apesar do filme ter um lado bastante festivo e celebratório, nunca se restringindo ao que ficou por cumprir, acho que o espectador sente essa dilação. Há uma ideia que gosto bastante de utilizar e que representa este virar de época, que se chama “regressar a casa”. Trata-se de uma época em que nós todos saímos para a rua e que, de uma maneira, foram trocadas entre si novas ideias, novos conceitos, novos apelos, e depois as pessoas simplesmente regressaram a casa, aos seus espaços domésticos, à tal família conservadora, quadrada e esquemática. Aceito esta visão de exploração, contaminação e, por fim, regressão. Há uma passagem no livro “A Revolução Sexual”, de Wilhem Reich, que é lida no filme, que hoje se tornou um bocado arcaica e anacrónica. É sobre a potência orgástica e de como muitas normas vieram conter/aniquilar/fechar essa ideia de se ter prazer sexual. Talvez hoje encontramos essas mesmas ideias reproduzidas de certa maneira nas revistas femininas, essas indicações de afrodi-equidade, só que não encontramos isso enquadrado ao espírito de emancipação e de libertação sexual.

Porém, ainda hoje essa ideia de igualdade sexual, o direito ao prazer mantém-se disfuncional e, por vezes, reprovado na nossa sociedade. Continuamos a ceder ao homem os seus desejos, que encaramos como inapropriados à mulher. Como sociedade, ainda temos medo de mulheres com desejos e fantasias?

É uma das dimensões importantes do filme, essas questões do desejo feminino, pelo que há um quadro, chamo-lhe assim, "o corpo é meu, faço dele o que quiser", cujo fascínio é que essas palavras vêm da boca de uma mulher com uma certa idade, de um meio rural, com os seus próprios princípios de funcionamento, etc, etc. Portanto, esse momento para mim é muito importante no filme, representa uma ideia, mais uma vez a da libertação da Mulher e da sua consciencialização. Ela diz isso de uma forma muito convicta e genuína, brincando com estes termos de imposições sociais e repreensões sexuais.

Em “Prazer, Camaradas!” recusa-se a exatidão da reconstituição, optando-se por uma espécie de encenação das memórias através da incorporação de atores envelhecidos. Voltando ao estigma do desejo feminino, é também uma “farpa” ao tal preconceito da nossa sociedade?

Pois, isso continua a ser um estigma. Em relação ao trabalho dos atores... Tentei dar-lhes poder para representar. Ou seja, criamos uma margem de liberdade para isso. Em vez de textos para representarem, deram-se determinadas situações dramáticas que depois eram trabalhadas e exploradas. O que acabei por descobrir, para minha "frustração", é que esperava que me respondessem de uma forma mais retraída ao que estava a propor. Por exemplo, pedi-lhes que se sentassem em bicicletas, correspondendo ao que Reich mencionava sobre contenção, a proibição ligada à consternação social em torno da pélvis, e que lessem determinado texto. O que acabou por acontecer foi uma resposta delas muito livre, não colocando qualquer entrave, como estivessem a perceber perfeitamente aquilo que lhes estava transmitir. Portanto, os interditos estavam muito mais em mim do que nelas. Isso foi o que descobri com toda esta experiência. Quanto mais velhos, mais livres e despojados são em relação ao seu prazer. É uma contradição em relação ao que acreditamos, que os mais velhos têm renitência em sair de um estilo de vida. Aprendi que estavam mais à vontade porque não tinham mais tempo a perder.

Recentemente, temos acompanhado a situação do Zmar, o complexo turístico em Odemira, em que se voltou a debater as questões de propriedade privada. Como os seus filmes abordam esta constante luta, sentiu que os fantasmas das “propriedade privadas” afinal não são bem fantasmas?

Pois, parece que não [risos]. A propriedade privada ainda está em voga. No entanto, poderíamos falar também sobre as patentes nas vacinas contra o COVID-19, que penso ser um tema muito mais pertinente neste momento, o de retirar rendimentos chorudos às empresas em prol da vida das pessoas. A questão do privado continua muito presente, as próprias farmacêuticas vendem-nos a ideia de que não existirá segurança na fabricação de vacinas após o descartamento das patentes. Neste momento, é importante relativizar isso, o que chamo de “regressar a casa”, que é bastante diferente do partilhar espaços coletivos. E este “regresso” é quase sinónimo de regressar ao nosso empréstimo bancário, ao nosso compromisso que foi criado.

Uma vez que estreou em Locarno em 2019 e encontrou só agora o seu espaço de estreia, acha que “Prazer, Camaradas!” se atualizou ou se enquadrou durante este tempo? Quando Portugal parece atravessar um período de radicalização do discurso e ideologia políticas?

Já estávamos há muito tempo nele [radicalização]. O privado está muito estruturado na nossa sociedade, que retira o poder a outras formas de organização. O que é pena, porque acabamos por ficar presos a algo que nos ultrapassa e estrutura, sem que nós queiramos e tenhamos consciência disso.

TRAILER "PRAZER, CAMARADAS!"

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