O antropólogo Miguel Dores está a finalizar uma tese de mestrado e um documentário sobre racismo em Portugal, a partir da história do homicídio de Alcindo Monteiro, português de origem cabo-verdiana, vítima de ódio racial em 1995.

"O objetivo é discutir o passado, uma memória, mas como é que essa memória se reconstrói no presente e como o presente nos obriga a falar sobre este passado", afirmou o investigador e autor do documentário à agência Lusa.

Miguel Dores, 30 anos, formado em Antropologia Visual, está a fazer um mestrado, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sobre a morte de Alcindo Monteiro, num estudo audiovisual que lhe permitiu estender a investigação a um documentário, intitulado "Alcindo".

A ideia "era fazer um estudo audiovisual, mas fui agregando outras pessoas à produção do projeto, formámos uma equipa e começámos a filmar um documentário, que não só é uma abordagem a esta noite [da morte do jovem], como tem uma análise dinâmica das disputadas racializadas em Portugal, das disputas políticas sobre o racismo em Portugal", disse.

Com o documentário praticamente já rodado, o investigador criou um projeto de 'crowdfunding' - angariação coletiva de fundos - na plataforma PPL, para reunir 10.000 euros, de forma a custear a finalização e pós-produção da longa-metragem, que deverá estrear-se em outubro.

"O documentário 'Alcindo' não possui qualquer intenção de ser um relato persecutório centrado na violência neo-nazi. Pelo contrário, o filme procura antes de tudo ser uma homenagem àqueles que resistem e àqueles que caem, e que nessa homenagem ilustra a estruturalidade de um conflito", lê-se no projeto colocado na plataforma PPL (https://ppl.pt/alcindo).

A campanha de angariação de fundos começou na quarta-feira, e estender-se-á até 30 de junho.

Miguel Dores explicou que "Alcindo" tenta fugir a uma abordagem sociológica: "Não há investigadores nem ninguém a falar no abstrato. Há pessoas a falarem sobre os seus projetos de vida, como eles estão ligados a esta memória e todas as pessoas têm uma relação pessoal com esta história".

Na madrugada de 10 para 11 de junho de 1995, um grupo de cerca de 50 'skinheads' invadiu as ruas do Bairro Alto, em Lisboa, e atacou com violência várias pessoas, entre as quais Alcindo Monteiro, 27 anos, espancado até à morte.

Onze 'skinheads' foram julgados e condenados por homicídio, seis foram condenados por agressões e dois foram absolvidos.

No documentário, Miguel Dores conta com depoimentos da família e amigos de Alcindo Monteiro, do advogado João Nabais, de "militantes antirracistas que começaram a sua atividade naquela altura", como Mamadou Ba, dirigente da associação SOS Racismo, que apoia institucionalmente o filme.

"Alcindo" reúne ainda imagens de arquivo, filmagens de manifestações e a participação de "interlocutores que contam a história do que aconteceu através do seu trajeto de vida e experiência nos anos 1990".

"É um projeto que começa com a noite de 10 de junho 1995, mas que vem até à atualidade e debate Bruno Candé, Giovanni e outros recentes acontecimentos", disse Miguel Dores, citando os casos das mortes do ator Bruno Candé, em 2020, em Lisboa, e do estudante cabo-verdiano Giovani Rodrigues, em 2019, em Bragança.

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