Foi uma decisão que correu mundo e colocou muita gente a falar em 2020 de um filme de 1939: a 9 de junho, o filme "E Tudo o Vento Levou" foi retirado da plataforma de streaming HBO Max, num âmbito de uma revisão dos conteúdos disponibilizados nos canais de televisão quando decorrem grandes protestos contra o racismo e a brutalidade policial nos EUA e noutros países.

"E Tudo o Vento Levou" retirado do catálogo da HBO Max depois de protestos contra o racismo
"E Tudo o Vento Levou" retirado do catálogo da HBO Max depois de protestos contra o racismo
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A longa-metragem sobre a Guerra Civil americana, que venceu oito Óscares, incluindo o de Melhor Filme e o de Melhor Atriz Secundária (para Hattie McDaniel, que se tornou na primeira mulher negra a ser nomeada e a ganhar uma estatueta dourada), continua a ser um dos maiores sucessos de bilheteira de todos os tempos (quando são calculados os ajustes pela inflação), mas a sua representação de escravos conformados e heroicos proprietários de escravos é alvo de críticas.

A plataforma destacou que o filme regressará numa data ainda a ser definida, juntamente com uma discussão do seu contexto histórico.

Num artigo especial publicado na quarta-feira (17), a Variety destaca que os cofres de Hollywood "estão cheios com filmes que podiam beneficiar de uma explicação ou aviso legal sobre representações datadas de raça, sexualidade, deficiências e outros".

A publicação especializada recorda que os mais citados como exemplos de racismo no cinema continuam a ser "O Nascimento de Uma Nação" (um filme mudo de 1915 realizado por D.W. Griffith, considerado um marco histórico de inovação do cinema enquanto arte) e "A Canção do Sul" (1946, Harve Foster, Wilfred Jackson).

Acrescenta que todos os filmes problemáticos devem ser vistos "com olho crítico", mas não banidos porque representam a era em que foram feitos "e é importante recordar a história para não repetir a intolerância e insensibilidade humanas": são recordados "Boneca de Luxo" (1961, Blake Edwards), pelo estereótipo de Mickey Rooney como japonês; "West Side Story" (1961, Robert Wise, Jerome Robbins), porque quase todos os porto-riquenhos pertencem a gangues; e "Mandingo" (1975, Richard Fleischer), descrito como sendo "de fazer cair o queixo" e "aparentemente feito para o público do movimento supremacista branco Ku Klux Klan".

Como ponto de partida, a Variety avançou com mais dez filmes problemáticos e razões que justificam contextualizações e debates antes e depois das sessões.

“Dirty Harry / A Fúria da Razão” (1971)

"Foi o impulsionador de uma vaga de filmes sobre polícias rebeldes que conseguem resultados seguindo os seus instintos e não a lei. O filme goza com os juízes liberais e benfeitores, e o vilão diz ter sido vítima de brutalidade policial, plantando a semente de que outras acusações desse tipo são falsas para obter simpatia."

“Forrest Gump” (1994)

"Embora seja um filme condescendente com qualquer pessoa com deficiência, veteranos da Guerra do Vietname e doentes com Sida, entre outras, na verdade é hostil com manifestantes, ativistas e o movimento de Contra-Cultura. Como bónus, a personagem 'adorável' Nathan Bedford Forrest recebeu o nome do seu avô, fundador e o primeiro grande líder do Ku Klux Klan."

“Indiana Jones e o Templo Perdido” (1984)

"Este filme foi um pouco longe demais na tentativa de tentar replicar o espírito dos filmes de ação da década de 1930. Como esses filmes antigos, os vilões 'exóticos' são retratados como estrangeiros primitivos e sedentos de sangue, resultando em representações negativas e estereotipadas da Índia e dos costumes hindus."

“Viver Depois de Ti” (2016)

"O filme menos icónico da lista, mas vale a pena destacar porque é muito insensível [...] um filme romântico é um romance sobre um homem (Sam Claflin) que fica paralisado após um acidente e se apaixona pela nova cuidadora (Emilia Clarke). Ele pede-lhe que viva a sua vida ao máximo em vez de viver "meia vida" ao seu lado. Portanto, suicida-se, sugerindo que isso é melhor do que viver com uma deficiência."

"Era Uma Vez... em Hollywood” (2019)

"Trata-se de dois homens brancos de meia-idade que anseiam pelos velhos tempos em Hollywood; por outras palavras, MHGA [Tornar Hollywood outra vez grande]. O filme decorre em 1969, quando alguns americanos sentiram que o 'status quo' estava a ser ameaçado por minorias, hippies e mulheres recentemente liberalizadas. Desde a controversa representação de Bruce Lee - uma das raras estrelas asiáticas de Hollywood - até ao facto de os negros parecerem inexistentes e os 'mexicanos', como são chamados no filme, arrumam carros ou servem à mesa, o filme de Tarantino parece tem vários pontos de cegueira. E as motivações de supremacia branca de Charles Manson são ignoradas."

“The Children’s Hour / A Infame Mentira” (1961)

"Drama que abordou um assunto que era tabu. Duas professoras (Shirley MacLaine, Audrey Hepburn) ficam horrorizados quando uma aluna problemática as acusa de serem lésbicas. Eventualmente, uma das professoras admite que tem sentimentos lésbicos e, em seguida, faz algo que é apresentado como inevitável: mata-se. O filme definiu o tom para representações de pessoas LGBT durante décadas, apresentado-as como desprezando-se a si mesmas, dignas de pena e pervertidas."

“The Searchers / A Desaparecida” (1956)

"John Wayne interpreta um veterano da Guerra Civil (do lado confederado!) que procura durante cinco anos a sobrinha raptada pelos comanches. A personagem de Wayne, Ethan Edwards, é um racista convicto que vê todos os índios como menos do que humanos. [...] Os fãs veem o filme como um estudo sóbrio sobre fanatismo; os detratores dizem que é impossível ignorar o facto de que os índios são retratados como selvagens ou cómicos."

"O Silêncio dos Inocentes" (1991)

"'Psico' de Alfred Hitchcock, foi pioneiro na ideia de um assassino transgénero, uma imagem que Hollywood usou com frequência ao longo dos anos, muitas vezes com um final surpreendente. Mas no Óscar de Melhor Filme de Jonathan Demme é mostrado desde o início que a identificação do transgénero como parte da sua doença mental; o público observa Buffalo Bill (Ted Levine) enquanto coloca maquilhagem, afasta os seus órgãos genitais masculinos para parecer mulher, brinca com o seu poodle e dança consigo mesmo, enquanto a sua prisioneira desesperada implora por misericórdia."

“Holiday Inn / 15 Dias de Prazer” (1942)

"Algumas versões cortaram a cena em que Bing Crosby bizarramente canta 'Abraham' com a cara pintada de negro [blackface] para comemorar o aniversário de Lincoln. É um de uma longa linha de filmes de Hollywood em que as estrelas se apresentam em 'blackface' e isso é sempre apresentado como uma brincadeira."

"A Verdade da Mentira" (1994)

"James Cameron é um cineasta raro: um brilhante contador de histórias e um verdadeiro visionário. Mas mesmo um génio pode dar um passo em falso. O filme é divertido e tem algumas cenas incríveis, mas os personagens árabes são fanáticos religiosos ou terroristas, ou ambos.

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