A HISTÓRIA: A partir da obra-prima de Charles Dickens, eis uma visão renovada e diferente da obra semiautobiográfica do seu autor. Passado na década de 1840, o filme narra a vida do seu icónico protagonista enquanto se movimenta num mundo caótico, na tentativa de encontrar um lugar que parece escapar-lhe. Da sua infeliz infância à descoberta do seu dom como contador de histórias e escritor, o percurso de David – ora hilariante, ora trágico – é sempre cheio de vida, cor e humanidade.

"A Vida Extraordinária de Copperfield": nos cinemas a 17 de setembro.


Crítica: Daniel Antero

Armando Iannucci tem uma desenvoltura mordaz para a criação de personagens habilmente destruidoras, alimentando-as com uma crueldade preciosa. Se na sátira cinematográfica "A Morte de Estaline" e na série "The Veep", as suas figuras calcorrearam os corredores do poder, intrigando-nos enquanto manipulavam os demais, no seu novo filme habitam a cidade de Londres entre 1820 e 1840.

“A Vida Extraordinária de Copperfield” é uma adaptação livre do clássico de Charles Dickens e vai enganar-se quem espera mais cinismo e uma língua viperina do escritor e realizador escocês.

Mais do que a maldade calculista, as figuras que tanto procuram sobreviver entre as classes como se manterem no topo trazem consigo a vigarice tonta dos Micawber (Peter Capaldi e Bronagh Gallagher), a ruindade estóica dos Murdstone (Darren Boyd e Gwendoline Christie), a ilusão sorridente e demente dos Trotwood (Tilda Swinton e Hugh Laurie), a candura no vício de Mr. Wickfield (Benedict Wong) e o ódio peçonhento dos Heep (Ben Whishaw e Lynn Hunter).

Tudo isto é visto de um modo terno e puro pelo olhar de David Copperfield (cândido e "chapliniano" Dev Patel), crente que, na sua odisseia teatral de auto-descoberta, irá marcar o seu nome na história e revelar o mais fascinante de cada pessoa.

Neste ponto, Iannuci inova das outras adaptações pela inclusividade e diversidade, com atores de várias origens, ignorando a cor. Assim, aumenta o alcance da obra, o sentimento e a genuinidade das suas personagens, em detrimento da exatidão histórica e a presença de preconceitos.

Com o coração no sítio, o corpo de “A Vida Extraordinária de Copperfield” move-se ao ritmo dos filmes mudos, com momentos de "slapstick", lembranças projetadas nas paredes e mãos gigantes que interrompem cenas.

Imbuídos do encanto da sua personagem principal e do espírito vitoriano, rocambolesco e pomposo que advém de uma obra com o título “The Personal History, Adventures, Experience and Observation of David Copperfield the Younger of Blunderstone Rookery (Which He Never Meant to Publish on Any Account)”, Iannucci e o co-argumentista Simon Blackwell deixaram-se embevecer e refinaram as aventuras para um mundo de conto de fadas que nos lembram "Pinóquio" ou "Alice no País das Maravilhas", intercalando-o com um certo surrealismo mágico de Terry Gilliam.

Quando acompanhados pelo espampanante design de produção e a ora elegante ora exuberante banda sonora de Christopher Willis, estes elementos projectam o ponto de vista do jovem Copperfield, ciente das injustiças sociais, mas sempre otimista em relação ao seu futuro e enchendo de imaginação o seu passado.

Com um sentido familiar e envolvente, “A Vida Extraordinária de Copperfield” vai da correria impulsiva e fugidia à languidez mais sombria, num passo tanto bruto como delicado, por vezes ingénuo, por vezes manhoso.

E Iannucci, como David Copperfield, respeita as suas memórias e as de Dickens, criando algo novo e mágico pelo caminho.

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