A HISTÓRIA: Novocherkassk, União Soviética, 1962. Lyudmila, comunista leal e membro do comité da cidade, testemunha o fuzilamento de manifestantes desarmados em greve laboral pelo Exército Soviético e oficiais do KGB. Durante este período de agitação, a sua filha desaparece. Para encontrá-la, Lyudmila deve confrontar os seus valores e visão política, e combater um sistema que persegue pessoas, bloqueia ruas e mente sobre os acontecimentos do massacre.

"O Começo": nos cinemas a 6 de maio.


Crítica: Hugo Gomes

Como combater uma ideologia gasta, arrastada e que se nega a morrer, até mesmo, quando a sua figura máxima já não habita o reino dos mortais? A resposta parece algo primitiva e digna de uma fita de Hollywood e das suas pregações de teor cristã: a maternidade.

“Caros Camaradas!”, o filme de Andrey Konchalovskiy, que se mantém fiel aos visuais do seu anterior “Paraíso” (2016), e novamente contando com a sua mulher Yuliya Vysotskaya como protagonista, é o resgate do massacre de Novocherkassk, ocorrido naquela cidade russa em 1962 e só tornado público 30 anos mais tarde.

Através deste acontecimento fatídico, uma manifestação de operários de uma fábrica atacada pelo exército soviético e a KGB numa operação de contenção, é retratada uma espécie de farsa na órbita dos resquícios do comunismo estalinista. Pois se Josef Estaline está morto e (bem) enterrado, o seu regime (ou melhor, o que sobra) permanece nas mentes e corações dos seus peões-chave, os homens e as mulheres iludidas que o veneram.

A crítica de "Caros Camaradas!" é simples e astuta, entender onde nos leva uma ideologia fora do prazo de validade e como os seus “atores” se mostram incapacitados e desesperados por mantê-la firme, nem que seja através de frágeis "arames". Mas o golpe certeiro e mortífero dá-se com o afastamento da ridicularização de todo esse constante sistema de reanimação e o abraço à dramaturgia, neste caso ao amor materno como epifania, com Yuliya Vysotskaya a rasgar, por momentos, a capa fria desta dissecação politizada.

“Caros Camaradas!” propõe ambas as alas, o pensamento crítico e o emocional, dois estandartes que marcham lado-a-lado para nos dar uma imagem da orfandade do sovietismo. A extinção como alerta, e a “ilha” formada por quem a rejeita, nunca cedendo ao absolutismo.  “Vamo-nos tornar melhores”, é a promessa que deixam, até porque as ideologias não morrem facilmente, tendem a ser recicladas e insufladas com novas vertentes fantasistas.

O cineasta Andrey Konchalovskiy prega-nos a desilusão e a derrota num filme altamente capaz, preciso e sem fazer grandes voos. Até porque a História, apesar de comportar como uma lição de justiça, nada tem de poética, e nem sempre é assim tão “justa”.

Tudo o que se passa à frente e atrás das câmaras!

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