Com a sua estreia em 1995, “Ghost in the Shell”, o anime de Mamoru Oshii adaptado da manga de Masamune Shirow, começou a estabelecer-se como filme de culto do neo-romantismo do pós-cyberpunk. Com uma teia filosófica, religiosa e transcendental, refletiu sobre a entidade, a rede neuronal e a alma, incidindo na ideia da inteligência artificial poder ambicionar um corpo 'cyborg'.

Tudo isto se processa em 2029, numa cidade hiper controlada, onde a Major Motoko Kusanagi, uma agente mais robótica que humana, combate o Puppet Master, uma figura etérea que invade e controla as mentes. O choque entre os dois irá revelar a verdade da IA e quem é que realmente activa as sinapses na metrópole.

Influência em muitas narrativas desde então, como para os filmes “Matrix”, “Ex-Machina” ou “Inteligência Artificial”, estranhava-se o tardar da apropriação intelectual e financeira pelos grandes estúdios de Hollywood. Já depois da segunda aventura filosófica de Mamoru Oshii pela existência digital, em "Cidade Assombrada 2: A Inocência" (2004), coube a Spielberg e à sua Dreamworks iniciar o processo de humanização desta história cibernética.

Em “Ghost in the Shell - Agente do Futuro”, Scarlett Johansson é Major, a primeira humana a ser tecnologicamente alterada para lutar contra o ciber-crime. Tem como seu parceiro Batou, interpretado pelo enorme Pilou Asbæk (da série "Borgen"), dentro da Secção 9, liderada por Takeshi Kitano no papel do Chefe Aramaki.

Quando Kuze (Michael Pitt), um fantasma cibernético, subjuga várias mentes pela cidade, a equipa une-se para descobrir o seu esconderijo e as suas reais intenções... pois os alvos são altos cargos da empresa que desenvolve os corpos cyborg, onde se inclui a Dra Ouelet (Juliette Binoche), a criadora de Major. E quando Major e Kuze se defrontam, 'glitches' na sua memória se enfrentam... e a verdade fica mais clara.

Com cenas de combate flutuantes, onde a suspensão em câmara lenta é marca registada e o ataque final intempestivo, Scarlett Johansson é felina dentro do seu fato de camuflagem termóptica, e apesar do seu caminhar estranhamente rígido e desengonçado, guia-nos numa Pan-Asia retrofuturista repleta de 'solidgrams' (hologramas tridimensionais do tamanho de edifícios), ora atravessando a rede binária que escuta todas os diálogos da cidade, ora inundando-nos no negrume da sua Imersão Profunda, em busca das memórias de uma gueixa corrompida.

Todo este universo é de uma clareza e perfecionismo exímio, obra da empresa de efeitos especiais de Sir Richard Taylor e Peter Jackson, a Weta Workshop, cuja equipa absorveu a singularidade de um projecto de sonho que é referência em qualquer ideal futurista.

Por este quadro vibrante e uma narrativa nova que une elementos dos dois filmes de Oshii, este é um filme para os fãs do arrojo visual onde não faltam cenas icónicas retratadas quase plano a plano... como o combate na água, o avião que sobrevoa a metrópole, o acordar de Major para um novo dia, o camião do lixo, as 'gynoids' (robots sexuais), os cães de Batou, o tabaco e os olhos protéticos da Dr. Dahlin, a reconstrução sintética da Major e mesmo a aversão da personagem Tosuga aos melhoramentos bio-mecânicos.

Mas para aqueles que idolatram "Ghost in The Shell" pela génese de uma possível fusão de uma entidade cibernética com um corpo 'cyborg', onde algo fantasmático se liga ao corpóreo para a replicação da matéria cerebral... vão ficar um pouco desiludidos porque Rupert Sanders e os argumentistas Jonathan Herman e Jamie Moss são fãs da saga, mas no final de tudo só querem contar uma história de detetives num filme 'blockbuster'.

Autor: Daniel Antero

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