"The Program" (utilizando o título original) é um “heist movie” que fala sobre um desportista desonesto e sobre o desejo diabólico de ganhar a todo custo naquele que é o maior e mais doloroso evento desportivo do mundo: a Tour de France. A tramoia foi tão bem realizada que Lance Armstrong (Ben Foster), o ciclista/batoteiro, iludiu por sete vezes o Tour, os fãs e a esmagadora maioria da imprensa. Aqueles que se atreveram a levantar suspeitas sobre a hipótese de doping por parte de Armstrong foram sistematicamente marginalizados.

Este filme baseia-se no relato de um destes jornalistas, David Walsh (Chris O'Dowd), ele que investigou e publicou essas acusações no The Sunday Times e no livro Seven Deadly Sins que serviu de base para o argumento adaptado por John Hodge. Realizado por Stephen Frears como se tratasse de um “grand tour”, temos várias etapas na trama que envolvem os principais momentos do golpe, os personagens entram em cena, atuam e desaparecem para deixar entrar outros protagonistas criando assim uma panorâmica completa da ascensão e queda de um ídolo.

Lance Armstrong foi interpretado por Ben Foster num desempenho bem executado e extremamente complicado por estar tão próximo dos acontecimentos (1993-2012). Houve transformação física e a performance emocional que revela a psicologia de um mentiroso. Prevalece no filme o lado de bully e sociopata que sempre disse aquilo que as pessoas queriam ouvir, uma figura real que pode ter inspirado milhões na luta contra o cancro assente em princípios que provaram ser uma grande falácia. É um relato que confirma que vivemos num mundo corrompido onde a ganância e a ambição ultrapassam todos os outros valores.

É visível que Stephen Frears despreza justamente o comportamento de Armstrong e que tem pouco interesse pelo ciclismo, embora as sequências na estrada e a direção de fotografia estejam fantásticas. A verdadeira motivação do realizador britânico foi registar e desconstruir o mito, sem olhar a outro tipo de facetas que pudessem justificar o impossível. Esta é a história maligna e irreal de uma figura maldita. A qualidade de Stephen Frears como contador de histórias aliada à performance maníaca de Ben Foster resultam num filme vencedor.

Jorge Pinto

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