"O cinema da minha infância tem cheiro a mijo e a brisa de Verão"

Pedro Almodóvar estava em queda abrupta. Os seus últimos ensaios instalavam-se como estagnações artísticas, invocando constante o seu passado, quer íntimo ou profissional. Talvez seja por isso, pelo qual o cineasta espanhol é caracterizado, essa constante recorrência como ingrediente primário da sua cinematografia - esse mesmo passado - onde cada estância assume um diferente paladar derivado da natureza dos seus próprios gestos.

Com os fracassados jogos de saudosismo em “Os Amantes Passageiros” e “Julieta”, a verdade é que Almodóvar, amargurado com as citações de êxitos de outrora, refugia-se persistentemente nas suas memórias, repescando a inspiração necessária para mais um híbrido autobiográfico. Nada de novo por estas bandas, mas “Dor e Glória” é o há muito esperado regresso à bancada principal, um efeito "proustiano" que nos vai levar pelo exotismo artificial do seu cinema.

Antonio Banderas (que, vamos ser sinceros, é ator de quem não se espera muito) é injetado com uma dose de personificação, camuflando-se com as vestimentas "almodovarianas", desde o melancolismo de fácil resolução até ao seu encantamento pelo percurso e indústria cinematográfica. Mas desenganem-se se julgam que “Dor e Glória” é um suposto filme de ator. Pelo contrário, é um pacto que se revê pelos códigos deste cinema … e para saber mais, basta ler novamente o título.

O ator preferido de Almodóvar interpreta um realizador de sucessos passados, hoje condenado à desinspiração e a uma busca desenfreada pela solução existencialista. Narrativamente oscilando entre a infância reconhecível e os dramas deste envelhecido cineasta que se salta de chapão para toda a sua bagagem memorativa, “Dor e Glória” parte à aventura de um canto de cisne, um realizador que tão bem conhecemos e que aqui persiste num ato de autossuperação. Um reconhecimento evidentemente maduro e conformado com as suas inglórias e sucessivamente o oposto.

Assim, inteiramos numa vida retalhada pela sua natureza fílmica, onde Almodóvar rasga em pedaços qualquer vínculo novelesco (o seu grande erro no anterior “Julieta”) sem com isso desligar por completo do artificialismo da sua estética. O vermelho escarlate, da autoria do diretor de fotografia José Luis Alcaine (colaborador habitual de Almodóvar), complementa um sentido de subtileza onírica, como é o caso da peça dentro da peça, o atalho para um dos mais doces reencontros de antigos amantes (tendo como cupido um impagável Asier Etxeandia).

Se a artificialidade "almodovariana" é uma das suas marcas, há que também salientar o detalhe como uma espécie de “submarino” nesta expansão estética. Trata-se de um gesto de realismo, alicerçado nos comportamentos das suas personagens, como, por exemplo, o de Antonio Banderas, que fuma pela primeira vez heroína, demonstrando a sua (não) perícia, ou a mãe (interpretada por Penélope Cruz) que conforta o seu filho, mal amparados numa estação de comboio. Um realismo encenado que contradiz a sintética capa de veludo.

Estas contradições resultam num cocktail autoral que faz vénia a todo um legado e repuxa esse evidente universo a um outro patamar, mesmo que, verdade seja dita, com uma sensação de regresso ao lar. Bem haja Almodóvar!

"Dor e Glória": nos cinemas a 5 de setembro.

Crítica: Hugo Gomes

Trailer:

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