A HISTÓRIA: Na vastidão do mundo vivo, partilhamos o nosso planeta com milhares de milhões dos chamados animais de quinta. Contudo, nas sociedades industrializadas, somos amiúde condicionados para os considerar animais sem senciência, meros recursos passivos. O realizador propõe-nos um universo moral radicalmente recalibrado, onde encontros com uma mãe porca (a epónima Gunda), duas vacas astuciosas e uma galinha perneta e exuberante nos recordam o valor inerente da vida de todos os seres.

"Gunda": nos cinemas a partir de 22 de julho.


Crítica: Hugo Gomes

O cineasta russo Viktor Kosakovskiy tem inclinação para criar um cinema sensorial acima dos tradicionais valores narrativos e temáticos.

Por exemplo, garantiu-nos um pesadelo líquido com “Aquarela”, documentário sem narração filmado 96 fotogramas por segundo que acompanhava a trajetória da água nos seus diferentes estados (e, convém salientar, nenhum deles, pacífico).

Nesse encontro, o realizador revelaria o seu novo projeto, um filme sobre um porco e uma galinha, em que prometia que o espectador seria incapaz de escapar o olhar e se chamaria “Apology” [“Desculpa”]. O título mudou, mas Kosakovskiy não nos mentiu, porque “Gunda” é cinema de um enorme conforto igualmente trespassável, cercando o espectador num contacto simuladamente direto com estas bichezas, filmadas a preto-e-branco e conservando o som natural que as rodeia.

Uma porca e os seus “rebentos”, uma galinha incapacitada, o campo e um eventual conflito dramático que subtilmente os confronta, há vestígios humanos mesmo não os avistando. O filme é isto e triunfa por ser exatamente isto: os animais à mercê do nosso olhar, no seu estado natural.

Atualmente vendido como “propaganda ao vegetarianismo” e basta ler só a publicitada legenda “produzido por Joaquin Phoenix” para automaticamente se abrirem as portas para esse ativismo, “Gunda” é principalmente um exercício de grande cinema, minimalista, linear e tecnicamente irrepreensível. Um [realizador húngaro] Béla Tarr rural, onde a naturalidade dos animais revela-se em "atuações dramáticas" indiscutíveis.

Kosakovskiy conseguiu mais uma experiência a merecer, de forma digna e obrigatória, o grande ecrã, porque no fundo o cinema transporta quem o vê para uma outra dimensão, realidade ou linguagem. “Gunda” fala-nos com exatidão de um mundo tão perto de nós, mas tão ignorado pelo nosso antropocentrismo. São animais a serem simplesmente animais e as imagens de crua beleza assumem exatamente aquilo que são e nada mais. Não existe engodo, tudo respeita a natureza e a sua autenticidade. Obrigatório.

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