A HISTÓRIA: A pequena Amy de 11 anos começa a desafiar as tradições da sua família conservadora quando fica fascinada por um grupo de dança inspirado na liberdade de expressão.

"Mignonnes: Primeiros Passos": disponível na Netflix a partir de 9 de setembro.


Crítica: Filipa Moreno

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A primeira longa-metragem da franco-senegalesa Maïmouna Doucouré teve a sorte de ser presenteada com uma grande polémica, à escala do exagero norte-americano. Boicotes à Netflix nas redes sociais incluídos.

Os meandros conservadores da política dos EUA dispararam acusações de hipersexualização das crianças (por causa do primeiro poster americano, não propriamente sobre o filme). Desculpem, não foi este país que aplaudiu uma Britney Spears menor de idade a dançar num uniforme escolar "sexy"?

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“Mignonnes: Primeiros Passos” merece um olhar sem preconceitos. Vai tratar-se de um tema sério, embrulhado noutros temas sérios, e podemos perder o norte.

Maïmouna Doucouré escreveu e realizou esta história, que lhe valeu a melhor realização no festival de Sundance. Partilha com a sua protagonista, Amy (Fathia Youssouf), a família senegalesa, tradicional e muçulmana, e a infância como emigrante num bairro francês.

A circunstância de Amy (ou Aminata) é um "cocktail" explosivo: aos 11 anos, começa a descobrir o seu corpo e o que pode fazer com ele num mundo como o nosso. Toma as dores da mãe quando percebe o seu desgosto por saber que o marido vai ter um segundo casamento e que é esperado que a primeira família participe nas celebrações.

Amy encontra três colegas da escola, rebeldes e desafiadoras, mas também muito ingénuas. Com elas e a dança, pode forjar uma nova identidade cheia de purpurinas, roupas curtas e popularidade. Para entrar no grupo, vê uns vídeos na internet e aprende movimentos sensuais que partilha com as amigas. Quando participam num concurso de dança, são vaiadas pelas coreografias sexuais.

Amy está a tornar-se mulher. Está a descobrir quem é, o que lhe podem pedir e o que deve aceitar. Qual é, afinal, o papel da mulher nos nossos dias? Esta é a pergunta que a realizadora faz.

Mas a realidade não é simples e a pergunta adensa-se. Qual é o papel de uma mulher presa entre duas culturas - uma tradicionalista, de obediência, e outra do culto da imagem? São duas formas da mesma opressão sobre a mulher.

“Mignonnes: Primeiros Passos” tem ainda o mérito de enquadrar estas perguntas na realidade: os filhos daquele bairro não têm como estudar, recursos ou pais presentes. Aquelas meninas não têm expectativas à sua frente, satisfazem-se com o imediatismo das redes sociais e entretêm-se com a personalidade que criaram para a praça pública.

Esta foi a realidade de Maïmouna Doucouré. Os seus planos limpos são símbolo da ingenuidade das suas protagonistas. Com grande inteligência emocional, consegue transformar aquele "cocktail" explosivo numa história feliz, de onde sobressai a família como pilar. É brilhante a forma como nunca coloca Amy em confronto com a mãe. Sabemos porquê, depois de ver a cena que a menina se esconde debaixo da cama da mãe e a ouve contar ao telefone que o marido vai voltar a casar, desfazendo-se em lágrimas silenciosas.

A realizadora falou com dezenas de pré-adolescentes no seu trabalho de pesquisa para o filme e tentou entender o seu mundo e dilemas. É um trabalho sociológico rico e um exercício de reflexão intenso.

Quantos daqueles políticos americanos terão visto o filme antes de o criticar? Quantos pensar melhor na educação que dão às suas crianças? Quantos vão perceber que não há diferença entre as "selfies" das suas filhas e as coreografias das "mignonnes"?

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