A HISTÓRIA: Mickey Pearson é um americano que cria um império de marijuana em Londres, mas quando começa a constar que se quer reformar, começam as conspirações e outros esquemas para ficar com o seu domínio.


Com a mesma pauta e a vontade constante de elevar o estilo sobre a substância de outros filmes de Guy Ritchie, "The Gentlemen - Senhores do Crime" também vive de diálogos urgentes, onde personagens cheias de "swag" são solos virtuosos de melodia sobre a montagem, que quer ser voraz e pulsante.

Autor de energia agressiva, o realizador inglês  sempre procurou marcar os seus filmes - "indies" ou "blockbusters" - de uma verborreia sinuosa, maliciosa, debitada às velocidades de linguarejar de rua por canalhas que se fizeram lordes.

A intenção é conhecida dos tempos de "Um Mal Nunca Vem Só" (1998), "Snatch - Porcos e Diamantes" (2000) ou "RocknRolla: A Quadrilha" (2008), mas apesar de um elenco de topo (Matthew McConaughey, Michelle Dockery, Jeremy Strong e Charlie Hunnam, além dos deliciosamente maquiavélicos Hugh Grant e Colin Farrell) e por mais sangue rock n´roll que se evoque, Ritchie soa-nos agora revoltado e cansado.

Suportado pela panóplia de talento para contar a sua habitual espiral de histórias dentro de histórias, formalmente anda tudo à volta de Mickey Pearson (McConaughey) e da luta que este trava com aqueles dispostos a ficar com a sua produção de marijuana. Ao mesmo tempo, também encontramos um exercício auto-reflexivo sobre a posição de Ritchie na indústria cinematográfica, através do detetive privado Fletcher (charmoso e viperino Grant) e do próprio Pearson, decidido a abandonar o seu negócio.

Descobrimos isso porque Fletcher tem a ambição de transformar o seu mais recente caso em filme. Chantagista, aborda Raymond (Hunnam), o braço direito de Pearson, pedindo dinheiro para que não publique o resumo dos crimes do patrão.

Para provar que sabe todos os detalhes, conta-lhe a ele e a nós a história em modo "flashback", avançando no seu ritmo indulgente, acrescentando ecos meta do mundo da produção audiovisual e do seu conhecimento cinematográfico. Não esquecendo os detalhes sórdidos e a revelia da sua imaginação, é persistente e desmesuradamente confiante. Algo que o irá levar à porta da Miramax, produtora do filme "The Gentlemen"... Guy Ritchie a piscar-nos o olho pela última vez.

Com interpretações irrelevantes de Matthew McConaughey ou Charlie Hunnam, para além do excêntrico Hugh Grant, o destaque vai também para um divertido e paciente Colin Farrell, treinador de um grupo de miúdos que filmam os seus crimes e ganham com as visualizações do YouTube... segundo piscar de olho.

Mas tudo começa com McConaughey a entrar num pub para beber uma cerveja da marca da brewery de Guy Ritchie... primeiro piscar de olho.

Como realizador, argumentista e produtor, Guy Ritchie vive enamorado pelo seu passado e, nesse sentido, "The Gentlemen" é o seu "guilty pleasure", com enredos e reviravoltas ao virar da esquina, repleto de nostalgia e linguagem colorida.

A revelação é que as anarquias irónicas e alegres dos seus filmes ficaram pelo caminho, substituídas por ritmo penoso, previsibilidade, displicência, linguagem vulgar, racismo constante em comentários humorísticos e infusões meta-Ritchie que são mais do que meras provocações... são o clamor de alguém que ainda quer mostrar que manda num território que já não sabe onde se encontra.

"The Gentlemen - Senhores do Crime": nos cinemas a 27 de fevereiro.

Crítica: Daniel Antero

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