Em entrevistas recentes, Neneh Cherry tem salientado que "Blank Project", o seu quarto álbum em nome próprio, não é propriamente um regresso uma vez que a sua voz nunca deixou de se ouvir desde finais dos anos 1990 - quando singles como "Woman" ou "7 Seconds" (ao lado de Youssou N'Dour) eram presença garantida em grande parte das rádios.

De facto, depois da viragem do milénio, a cantora sueca (que elegeu Nova Iorque e Londres como segundas casas) deu voz a canções dos Gorillaz, Groove Armada, Kleerup, Teddybears ou 1 Giant Leap e até formou uma banda, CirKus, com o marido (o músico e produtor Cameron McVey) e a filha.
Mesmo assim, estas colaborações serão uma nota de rodapé numa discografia composta por três álbuns a solo cuja recusa em alinhar pelo óbvio abriu caminho para nomes como Missy Elliot, Kelis ou M.I.A., entre outras trituradoras e reconstrutoras de géneros e rótulos (e por cá, até os Buraka Som Sistema a homenageram com uma versão de "Buffalo Stance"). Mais do que isso, deixou pistas do rumo que o trip-hop haveria de delinear, tanto em "Raw Like Sushi" (o primeiro álbum, de 1988, que recrutou Robert Del Naja, dos Massive Attack, antes da estreia do coletivo) como em "Homebrew" (de 1992, cuja ficha técnica inclui Geoff Barrow, dos Portishead, a ensaiar ambientes dominados por Beth Gibbons anos depois).

Curiosamente, um primeiro contacto com "Blank Project" não nos lembra assim tanto desses discos, antes daquilo que a enteada do trompetista Don Cherry gravou antes e depois. O novo conjunto de canções soa mais a uma evolução natural de "The Cherry Thing", álbum que a cantora editou com o grupo de free jazz escandinavo The Thing, em 2012, ou mesmo a uma revisão do frenesim pós-punk vivido em meados dos anos 1980 ao lado dos Rip Pig + Panic, uma das muitas bandas que antecederam a aventura a solo. Também há sombras da década seguinte, embora devam mais à ansiedade e rispidez dos primeiros discos de Tricky (com quem Cherry chegou a colaborar no projeto paralelo Nearly God) do que a qualquer eco da pop aveludada de "Woman" ou da fusão de vistas largas de "Homebrew".

No improvisar é que está o ganho

Gravado em apenas cinco dias, ao lado de Kieran Hebden, AKA o mago da eletrónica Four Tet, que assegura a produção, e dos também britânicos RocketNumberNine, dupla de instrumentistas com quem Cherry tem colaborado, "Blank Project" traduz esse período condensado e quase sempre movido pelo improviso, tanto para o melhor - há uma urgência invulgar numa veterana à beira dos 50 anos - como para o pior - alguns momentos têm sabor a experiência inacabada. Mas se nem todas as partes funcionam por completo, o todo é forte, arrojado, confiante, mantendo, como "Raw Like Sushi" (e ao contrário dos sucessores) uma identidade de álbum, mais do que de uma mera coleção de canções.

Sem ter como objetivo a abertura de caminhos (Cherry já deu para esse peditório), o disco é um retrato quente do presente, tanto da esfera pessoal da sua autora como da promiscuidade de géneros de alguma da música mais estimulante do momento. Apesar de alguns temas contarem com pouco mais do que a percussão, uma voz simultaneamente lânguida, tensa e fresca desmotiva eventuais acusações de subprodução e toma conta das canções.

Da meditação à explosão

"Across the Water", em registo spoken word, dá um arranque meditativo com Cherry a abordar a morte da mãe ou a admitir recear as perspetivas de futuro das filhas. O tom quase solene, a que não nos habituamos de imediato, conduz-nos para a atmosfera doméstica da faixa título, mais reconhecível pela atitude quase confrontacional, mas também espirituosa q.b., do relato de um quotidiano a dois - com direito a comentários sobre o ciclo mentrual ou a um rabo que pode não caber nas calças novas. Neneh Cherry tão desbocada como há vinte anos, portanto, agora amparada por ritmos quase tribais e produção rugosa.

Ainda mais suja e austera, "Weightless" mostra que a distância entre o jazz, o breakbeat e o rock pode não ser muita, convocando baixo e cowbell para um híbrido que contraria o título. Em "Spit Three Times" a tensão é outra: subtil, crescente, sem grande espalhafato, mas com um efeito mais magnético enquanto narra uma relação de atração e repulsa. O compasso não muito acelerado também funciona em "Naked", com teclados e sintetizadores a tornarem esta numa descendente espiritual de baladas perfeitas como "Manchild", "Somedays" ou "Piece in Mind" (e uma das raras lembranças fortes do passado a solo).

A estranheza de "Cynical" e a fragilidade de "422" são outras peças de uma tapeçaria que brilha mais em "Out of the Black", inesperada parceria com Robyn. Inesperada não tanto pela parceria em si - as cantoras, conterrâneas, já se conhecem há anos e a admiração é mútua -, mas por se atrever a testar a electropop num alinhamento em que já não contávamos com ela. A canção é de longe a mais orelhuda (com destaque para um refrão irresistível) e, por isso, o único potencial hit de um disco pouco preocupado em despertar grandes atenções.

O melhor de "Blank Project", no entanto, pode muito bem estar mesmo no final. "Dossier", tão claustrofóbica como libertadora, pega nas melhores derivações dubstep de um Burial e compensa a vertente talvez demasiado cerebral de alguns momentos do disco. E "Everything", a fechar, nem precisa de se aproximar da pista de dança para resultar num concentrado de tensão. Cherry, com uma voz em ótima forma, dispara desabafos com uma voracidade que nos parece sem filtro, cereja em cimo do bolo do turbilhão emocional percorrido ao longo do disco e rematado em sete minutos que o amplificam. "Good things come to those who wait", garante ao longo do tema. Quando a espera acaba com álbuns como "Blank Project" - e sobretudo em canções destas -, não temos como discordar...

@Gonçalo Sá

Videoclip de "Buffalo Stance" (1988):

Videoclip de "7 Seconds", com Youssou N'Dour (1994):

Videoclip de "Woman" (1996):

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