Falar-se de Marcelo Camelo em Portugal poderá não dizer nada a muita gente. Los Hermanos também não deverá ser a melhor referência. Teríamos de regressar até 1999 e falar de “Anna Julia”, o single de maior sucesso da banda brasileira mas talvez o tema menos representativo de toda a sua discografia, para termos uma reação parecida com: “Aah, já sei quem é...”.

Apesar disso, “Toque Dela” era um dos discos mais esperados no mercado brasileiro e para muitos esteve à altura das expetativas. Houve dois fatores que foram determinantes para a construção do novo álbum de Camelo: a mudança de cidade, do Rio de Janeiro para São Paulo, e o seu relacionamento com a cantora Mallu Magalhães, cuja sombra está presente ao longo de todo o alinhamento. A marca de um casal apaixonado pontua a cadência deste trabalho e talvez esteja aqui a maior diferença entre “Sou” e “Toque Dela”.

Marcelo Camelo faz regressar as guitarras elétricas, com uma sonoridade mais alegre e menos minimalista do que no projeto anterior. “Toque Dela” continua, no entanto, a ter uma forte influência da MPB e a aproximar-se cada vez mais da bossa nova. Paralelamente nota-se ainda a presença de um indie rock que, de alguma forma, se arrastou dos últimos álbuns dos Los Hermanos. Este é um disco com um ritmo lento que, apesar do regresso de alguns momentos elétricos, continua muito acústico, pintado por assobios, ukuleles, metalofones, naipes de sopros e de sol.

Gravado durante o ano de 2010 e produzido pelo próprio autor, “Toque Dela” conta com a colaboração do sexteto Hurtmold, que já tocava em metade das faixas de “Sou”.

O amor é talvez o tema principal deste álbum, presente nas dez faixas que o compõem. Alguns temas destacam-se claramente pela beleza dos arranjos e dos poemas cantados por Marcelo. Em músicas como “Ôô”, o primeiro single, em que canta “Tudo que eu fizer vai ser pra ver aos olhos dela”, ou em “Três Dias”, a melancolia melódica mistura-se com a esperança da poesia.
Em “Despedida”, Marcelo recupera uma canção composta há alguns anos e que já tinha sido gravada por Maria Rita. Podemos destacar os sopros e a percussão, que nos levam até uma musicalidade muito próxima do interior do Brasil.
Além de ser o objeto principal deste disco, Mallu Magalhães tem uma pequena participação no tema “Vermelho”, em que canta no coro.

Para quem já conhece e gosta do trabalho de Marcelo Camelo, trata-se de um excelente disco, o consolidar de um crescimento como compositor e como letrista. As diferenças, especialmente os poemas cantados, menos introspetivos, mais positivos, são muito bem-vindas.

Quem não conhece tão bem o trabalho do brasileiro poderá ter alguma dificuldade em deixar entranhar o álbum - tal como poderia ocorrer no anterior -, mas depois de algumas audições atentas torna-se difícil resistir-lhe. A playlist deste Verão não será a mesma sem ele.

@Edson Vital

"Copacabana" (do disco anterior, "Sou"):

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