Toda a expetativa desapareceu, contudo, no momento em que Dulce Pontes entrou em palco, com um vestido comprido, e se sentou ao piano, para interpretar "Barquinha". A intimidade com o público começou logo aí, nesse momento, com aartista a interpretar o primeiro tema da noite com inocência, transparecida pelas bolas de sabão que caíam do teto.

A força da sua tão reconhecida voz foi mostrada, logo a seguir, em "La Boheme" e "Nu/Ondeia", com Dulce Pontes a esvoaçar para notas extremamente altas, a um ritmo controlado, capaz de tirar o fôlego a todas as pessoas presentes no Centro Cultural de Belém. O poder transmitido não invalidou a humildade demonstrada, a par e passo, nos agradecimentos. Afinal, o palco, em terras portuguesas, é a sua segunda casa, o local onde se sente à vontade, perante o público que a viu crescer como artista.

Chega, então, a altura de se levantar, pegar no microfone e trazer um pouco mais de alma portuguesa, com as canções "Senhora Almortão" e "Bailados do Minho". Notas cada vez mais altas, moldadas às canções que interpretava, e boa disposição em cima do palco, com pedidos de acompanhamento.

Pouco depois, mais um momento animado, com a interpretação do clássico do fado "Ardinita", que deu, por sua vez, lugar a mais um momento íntimo, com "Ovelha Negra", presente no disco "O Coração Têm Três Portas" (2006), ao leme. Não obstante as «reviravoltas» na voz de Dulce Pontes, que cativam o público, há outra riqueza que não passa despercebida da audiência: a composição dos temas.

Em "Ovelha Negra", são interpretadas brilhantemente letras tão ricas (“Caminhei vales e rios/ Passei fomes passei frios/ Bebi água dos meus olhos/ Comi raízes de dor/ Doeu-me o corpo de amor”) e o mesmo acontece em "Júlia Galdéria" (“A Júlia Galdéria/ Viveu na miséria/ Foi ela a culpada/ Marido não tinha/ Vivia sozinha”) - tema do seu disco “Momentos” (2009) e uma homenagem ao seu tio, Carlos Pontes.

Apesar de soar tão lusitana, uma das qualidades de Dulce Pontes é agarrar em outras sonoridades e torná-las suas, como se fossem genuinamente portuguesas. Há flamenco e fado em "Meu Amor Sem Aranjuez", um bandolim e cavaquinho em "Martin Codax", e há um nariz de palhaço em "Soy un circo". A faceta multifacetada termina, para a alma lusitana regressar com o clássico de Zeca Afonso, "Índios de Meia Praia", presente no disco “Lágrimas” (1993), da cantora. Houve um viva a Zeca Afonso e foi a partir deste momento que Dulce começou a interagir mais com o público, com agradecimentos e abraços.

Com "Folclore", peça criada a partir da Cantiga da Azeitona, da Cantiga de S. João e Aboio, tenta-se transmitir o património ancestral do povo português, os costumes e tradições. Para interpretar o tema, a cantora livra-se do xaile e encurta o vestido, para um curto número de dança contemporânea. Uma atuação majestosa, não fosse a falta de fôlego sentida quando as luzes se desligaram e o público aplaudiu plenamente. Património do povo português é também o clássico "Canção do Mar", tema que colocou Dulce Pontes nos holofotes internacionais. Todos acompanham Dulce, que coloca o microfone para as pessoas cantarem o refrão, não fosse este um dos momentos mais esperados da noite.

As palmas ressoam no Grande Auditório do CCB. Dulce Pontes está em casa, descalça em palco. São oferecidas flores, trocam-se gestos de carinho com alguns corajosos que atravessam o auditório para a felicitar. Mas ainda há tempo para cantar e dançar "Lauridinha" com as pessoas e, por último, o tema de Amália Rodrigues, "Lágrima". O bom filho a casa torna. Resta uma passagem pelo Coliseu do Porto, antes de Dulce Pontes embarcar para palcos internacionais.

Texto: David Pimenta

Fotografias: Ricardo Guerreiro

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