A forma inocente e quase inofensiva com que Julianna Barwick subiu ao palco do Maria Matos na noite de ontem não fazia adivinhar a vitória e conquista em que se iria tornar a sua atuação.

Depois de ter interpretado sozinha os temas “Offing” e “Labyrinthine”, a artista, que se manteve até ao final do concerto muito limitada a nível de palavras, apresentou e chamou a violoncelista Helena Epsvall e o guitarrista Scott Bell ao palco, a fim de servirem de fôlego a uma viagem calma e apaziguante – a música de Barwick tem propriedades medicinais e devia ser receitada em consultórios como terapia anti-stress – liderada pelas mais belas e harmoniosas conjugações de teclas e efeitos sonoros.

E, se o primeiro contacto com a artista ameaçou alguma fragilidade em palco, o relógio acabaria por nos mostrar que estávamos redondamente enganados: a norte-americana tomou conta como ninguém do atelier de corte e costura que se erguia à sua frente e sobrepôs vozes em camadas de fazer inveja às mais coloridas bacias de sedimentação. Mas o exercício vocal não ficou por aqui. Depois de “Look Into Your Own Mind” e “Adventurer of The Family” terem sido servidos com uma boa dose de experimentalismo gerada nas cordas de Scott e Helena, foi a vez dos temas “Forever”, “One Half”, “The Harbinger” e “Crystal Lake” serem acompanhados de forma irrepreensível pelo coro juvenil de Lisboa, colocando em plena evidência toda a faceta coral e gospel que inspiraram a artista na sua infância.

O concerto, inteiramente dedicado a “Nepenthe”, a mais recente obra de longa-duração de Barwick, fez-se acompanhar de um conjunto de imagens projetadas em forma de círculo numa gigantesca tela, dando a sensação de estarmos a atravessar o mundo de uma ponta à outra e a contemplar a paisagem através da escotilha de um meio de transporte qualquer. Deixado ao critério de cada um. Sentimo-nos reféns dessa viajem, assim como nos sentimos reféns do pequeno conjunto de cordas (incluindo as vocais) e teclas que Julianna orquestrou de forma tão brilhante. E, como bom prisioneiro que foi, o público desfez-se em aplausos e não descansou enquanto não trouxe a autora de volta ao palco para um derradeiro e curto passeio pelo seu enorme imaginário.

Manuel Rodrigues

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