Já não é a primeira vez que Maria Rita nos visita, sendo sempre capaz de emocionar pela voz e interpretação. Desta vez, na passada sexta-feira, foi um pouco diferente, pois, para além disto, ainda nos trouxe o espírito de Elis Regina, uma das mais enigmáticas artistas do Brasil, 30 anos depoisda sua morte. O Pavilhão Rosa Mota acolheu na sua cúpula várias gerações, umas que vinham recordar/redescobrir Elis, outras que procuravam mais um momento de Maria Rita, e ainda aquelas que encontravam na junção das duas uma perfeita simbiose. Foi o branco, que simboliza paz, pureza, limpeza e espiritualidade, a corescolhida para vestir a intérprete neste momento de homenagem e de proximidade da artista e mãe Elis.

O concerto iniciou-se com Imagem, com Maria Rita a dirigir o propósito do seu canto ao público: “Bom, ai que bom é ver vocês/ E cada vez que eu volto é pra dizer/ Que sem ter vocês/ Sem ter vocês/ Não sou ninguém”. Seguiram-se músicas como Arrastão e Bolero de Satã, em que o palco se encheu de vermelho,e acolheu uma Maria Rita que se entregou de corpo e alma - postura que manteve até ao final do espetáculo. Com Águas de Março também o público se entregou, iniciando-se as incessantes palmas e o meticuloso coro. Elis marcou uma época, marcou gerações e, com certeza, marcou vidas, pois nas vozes de cada um na audiência quase era possível ouvir as histórias e memórias associadas a cada música entoada.

Ainda o espetáculo se iniciava e o calor da noite já era abrasador. Muitos fãs sentiam a necessidade de sair do Pavilhão para apanhar um pouco de ar e recuperar o fôlego, e a maioriaabanava os flyers promocionais e os próprios bilhetes, se assim serviam de leques, para se irem refrescando. Poderíamos dizer, contudo,que, apesar do desconforto, o calor da noite nos transportou para o Brasil. Ao longo da sua interpretação, Maria Rita não só “brincava” com a voz, como que teatralizando,como era capaz de vivenciar e transmitir emoções tão contrárias, como a melancolia e a felicidade, numa mesma canção. Foi o caso de Saudosa Maloca, Ladeira da Preguiça e Vou Deitar e Rolar. Nestas músicas o concerto tomou um ritmo mais acelerado, em que a intérprete e seus quatro músicos revigoraram-se, não tendoo públicoconseguido resistira acompanhar com palmas e bateres de pés alvoroçados. No final de Vou Deitar e Rolar, a música silenciou-se e Maria Rita encarnou a personagem, gesticulando e dialogando com o público “E agora cadê, cadê você?
Cadê, que eu não vejo mais, cadê? Pois é, quem te viu e quem te vê! Quaquaraquaquá, quem riu? Quaquaraquaquá, fui eu!...”. Seguiu-se É com esse que eu vou, música já na época antiga, a que Elis deu nova roupagem, tornando-se um dos seus sucessos: “É com esse que eu vou/ Sambar até cair no chão/ É com esse que eu vou/ Desabafar na multidão”.

Também não faltou Querelas do Brasil, música que iniciou um pequeno repertório de melodias que registaram a tristeza, o patriotismo e a ditadura militar no Brasil da época de Elis - “O Brazil não merece Brasil/ O Brazil ta matando o Brasil”. Foi então que Maria Rita falou da consciência social da mãe como artista, do quanto esta acreditava que estar num palco e ter um microfone na mão significava responsabilidade de fazer o povo pensar, de estimular diálogos, discussões e até soluções. Elis acreditava poder servir de elemento catalisador, de canal e de meio, planeando os seus espetáculos “pensando na ferida onde deveria por o dedo e o rosto onde deveria dar o tapa”. Maria Rita referiu ainda que “hoje, que há uma Democracia, já não se pode falar tanto, não se consegue”, assinalando a Ditadura da imagem e do marketing como as novas formas de ditadura desta geração, representando lutas diferentes das de sua mãe. A artista aproveitou também para mencionar as manifestações que têm ocorrido recentemente no Brasil e relembrar a preocupação expressa pela mãe há mais de 35 anos acerca do futuro do seu país – “Seria um país mudo? Cego? Surdo? Oprimido?”.

Maria Rita afirma o seu orgulho por Elis, a artista, e o seu desejo de que as preocupações da sua mãe terminem por fim. Irromperam Menino – “Quem cala sobre teu corpo/ Consente na tua morte” – e Onze Fitas, em que a cantora pareceu libertar alguma raiva, sentindo cada palavra, e rebentou um rock acompanhado de luzes psicadélicas. Me deixas louca e Tatuagem fizeram também parte do alinhamento, composições pelas quais o público português demonstrou ter grande afinidade. Pouco depois,Maria Rita voltou a dirigir-se ao público de coração aberto, partilhando que, quando era criança e ouvia as músicas daquela que é considerada por muitos críticos, comentadores e outros músicos, a melhor cantora brasileira de todos os tempos, “não entendia muito, mas entendia que era a minha mãe e sentia saudade”. Já na adolescência, entendia melhor e não gostava, porque não entendia a necessidade de alguém “se despir daquela forma em frente de tanto desconhecido”. Contudo, quando por fim percebeu que os pais são homens e mulheres, com sonhos, sombras, medos e batalhas, hoje, quando ouve Elis, entende e gosta muito. Hoje já não sente vergonha, mas orgulho -tem como exemplo e acha inspirador. No entanto, a saudade parece persistir, perguntando-se como seriam as suas conversas – “Mãe, o que eu faço?”. Concluiu que seriam grandes amigas. O público, ao ouvir palavras tão sinceras e sentidas, jorrou em aplausos e até algumas lágrimas. Foi assim que Maria Rita introduziu as duas músicas seguintes, em que abriria o seu segredo, pois “é nessas que entendo que os dois universos (de mãe e filha) se encontram”: Essa mulher e Se eu quiser falar com Deus.

Alô Alô Marciano e Aprendendo a Jogar foram canções entoadas por todos, em que não só Maria Rita cantava para a audiência, como esta última entoava para as intérpretes, mãe e filha. A cantora apresentou ainda Doce Pimenta – “A vida é como uma escola/ E a morte é o vestibular/ No inferno eu entro sem cola/ Mas o céu eu vou ter que descolar” –, música que considera traduzir muito bem como a mãe conduzia a sua vida. Não pôde deixar de falar de Rita Lee, cantora, compositora e amiga de Elis, de quem pode ter herdado o seu nome – “Não sei se é verdade, mas não hei de negar, jamais!”. Maria Rita contou que Rita Lee foi presa durante a ditadura e que Elis, pegando num dos seus filhos pequenos, foi à delegacia e exigiu tudo: médico (pois Rita Lee estava grávida), água, advogado… Foi a partir deste episódio que as artistas se tornaram grandes amigas. Ao falar de amizade, não pôde também esquecer Milton Nascimento, outro grande amigo de Elis, que foi de grande importância no lançamento de Maria Rita no mundo artístico – “me pegou ao colo” –, pelo que esta lhe é muito grata. Esta diz respeitar muito o silêncio de Milton sobre a amizade que nutria por sua mãe, mantendo-a na sua intimidade, o que, aos olhos de Maria Rita, é significado de pura lealdade. O nome de Milton Nascimento ecoou no Pavilhão originando uma forte salva de palmas, principalmente com as palavras: “Minha mãe dizia que, se Deus tivesse voz, seria a de Milton Nascimento”.

Antes de retomar o seu repertório, a cantora agradeceu ao público a sua presença, os seus sorrisos e emoção. Seguiram-se Morro velho e O que foi feito devera, em que foram raros os fãs que se mantiveram sentados. No final, Maria Rita parou de cantar, ficou só batendo palmas, acenando e aproximando-se do público, emocionada. Quando deixou o palco, ninguém ousou arredar pé, esperando ansiosamente por alguns êxitos de Elis que ainda não tinham sido interpretados, e que logo chegaram em avalanche: Fascinação, Romaria, Madalena e, finalmente, Redescobrir, que dá nome ao álbum apresentado. Nesta última parte, a cantora pisou o palco “coberta de estrelas” e não conseguiu conter a sua emoção e lágrimas, que rapidamente contagiaram o público. E foi “Como se fora a brincadeira de roda” que Maria Rita e seus músicos terminaram este turbilhão musical de memórias e deixaram o público cheio de melancolia e felicidade.

Sara Ralha

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