Os olhos não despegam dos instrumentos que Mamer e os seus músicos vão tirando dos sacos. Sentam-se em almofadas coloridas e de perninhas à chinês, mas estão longe de entender a língua de Mamer, o músico chinês de etnia cazaque. Vestidos de preto – Mamer também de óculos escuros e boina –, os músicos acomodam-se em frente aos olhares das dez crianças trazidas pelos pais que, na maioria, aproveitam para assistir ao “concerto” à borla, sentados nas cadeiras da plateia, tirando fotografias e filmando.

Mamer e os três músicos da banda IZ que o acompanham, Yerbol, Nurtai e Zhang Dong, não sabem ao que vão, mas alinham. Uma das técnicas do Serviço Educativo e Cultural do Centro de Artes de Sines resume a ideia: mostrarem os instrumentos, deixarem as crianças experimentá-los e responderem às suas perguntas.

O que pareceria difícil, dado que não falam a mesma língua nem partilham a mesma cultura, afinal é fácil, porque a música é uma linguagem universal. Zhang Dong começa a revelar o conteúdo da sua amolgada caixa de metais e vai passando sininhos e chocalhos para as mãos das duas meninas mais despachadas, que se levantam logo ao primeiro “querem experimentar?” e que põem o dedo no ar antes mesmo de terem perguntas para fazer.

Maria, de quase oito anos, é uma delas, talvez porque a música já faz parte da sua vida. Trazida pelo pai, também ele músico, é ela própria que tem pedido para ir aos ateliês oferecidos às crianças pelo Festival Músicas do Mundo, à semelhança de anos anteriores. Maria diz que ouve muita música, mas a preferida é mesmo “a banda do mano”, enquanto o pai realça que a música “desperta” a filha, que “vai começando a conhecer coisas que não conhecia”.

O contacto com os instrumentos é o ponto alto deste encontro improvável entre uma banda chinesa e um grupo de crianças portuguesas. Uma miúda mais crescida pede especificamente para experimentar o dombra, instrumento tradicional cazaque, e todos se espantam com o som que sai do berimbau na boca de Mamer.

O Músicas do Mundo de Sines “não tem uma faixa etária específica” e tem tido a “preocupação” de estender o festival “a todos”, explica Liliana Rodrigues, responsável pelas iniciativas paralelas e membro da equipa do Serviço Educativo e Cultural do Centro de Artes. “Consideramos de extrema importância chegar aos mais novos”, proporcionando-lhes “abertura de horizontes”, frisa.

Estes encontros com as bandas que à noite tocaram para os pais são “a oportunidade de oferecer aos mais novos uma viagem até outros países que para eles ainda são desconhecidos” e também para os músicos darem a conhecer a sua música, pois as crianças serão “os próximos ouvintes”.

Realçando que aos fins de semana a adesão de pais e filhos é menor, Liliana Rodrigues fixa “uma média de cem crianças por dia” durante a semana.

As oficinas para crianças prosseguem em Sines, sempre às onze da manhã, com Kidu Bringue Ball (hoje), Shunsuke Kimura x Etsuro Ono (quarta-feira), Nomfusi&The Lucky Charms (quinta-feira), Ayarkhaan (sexta-feira) e Nathalie Natiembé (sábado).

Depois de três dias de música no fim de semana passado, o Festival Músicas do Mundo retoma os concertos nesta quarta-feira, prolongando-se até sábado.

@Lusa

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