Os dinossauros estão há muito extintos, mas J. Mascis jura a pés juntos que não. Tanto é que, após a edição do magnífico “Several Shades of Why” (2011), decidiu vir ao Primavera na companhia dos Dinosaur Jr., um power trio à volta da santíssima trindade do baixo, bateria e guitarra. Com um som pouco favorável e um Mascis com a voz um pouco sumida, os Dinosaur Jr. estiveram longe de convencer, apresentando um som demasiado datado e sem grandes motivos para celebração. Teria feito mais sentido a vinda de J. Mascis a solo, podendo mostrar, de forma cristalina, aquele que foi um passo em frente rumo à emancipação sónica da banda que ajudou a formar.

Depois da visita ao museu para ver os dinossauros, tempo para uma rápida fatia de bolo à beira-mar. Muito discretos – só após uma prospecção atenta se descobria onde estava o vocalista -, os The Sea And Cake navegaram nas águas de um pop-rock com um certo travo a algodão-doce, cumprindo a missão sem tocar o deslumbramento.

“Sou camionista, sou o maior”. Não se assustem, ainda não foi desta que o Primavera proporcionou um momento pimba. A razão desta introdução deve-se ao facto de Daughn Gibson, o artista que se segue, ter uma biografia muito sui generis, que inclui a tarefa de baterista em obscuras bandas de heavy metal e também a vida de camionista. Gibson apresentou-se em palco na companhia de um baterista e um guitarrista, alternado a vocalização com a programação e o martelar suave de um teclado. Revelando a sua faceta de crooner e de contador de histórias, Gibson fez uso da sua voz cavernosa, compondo ao vivo a banda sonora para uma casa de alterne visitada por cowboys de barba rija e coração mole.

Os Explosions in the Sky foram a única carta fora do baralho que tinha vindo empacotado de Barcelona, e brindaram os presentes com a sua ideia de rock futurista e espacial. Ao ouvi-los, não podemos deixar de pensar nuns Mogwai ou nuns Sigur Ros, faltando talvez um pouco da originalidade dos primeiros e da linha melódica e veia poética dos segundos. Mesmo com alguma tendência para a monotonia, não deixou de ser uma bonita erupção vulcânica.

Os Savages, quarteto que habita em terras de Sua Majestade, ofereceram talvez o melhor concerto do dia de fecho do Primavera. A banda parece ter pegado no legado dos Bauhaus para servir um punk-rock com as vísceras à mostra, juntando guitarras uivantes, uma bateria tresloucada e uma voz que parece ser a herdeira natural de Siouxsie Sioux (serão parentes?). Jehnny Beth – nome artístico da vocalista – tem uma sensualidade máscula, uma pose de um Ian Curtis onde o estado quase epiléptico e os trejeitos militares dão lugar a uma negra graciosidade. Uma actuação de uma crueza arrepiante, que deixou suspensa a vontade de sonhar, com medo que um pesadelo selvagem fizesse das suas.

Os Liars mudaram de rumo no mais recente disco, e o concerto de ontem terá talvez provado – os fãs que digam de sua justiça – que viraram na direcção errada. A banda decidiu enterrar o rock e tapá-lo com uma pazadas de electrónica, mas o que se viu no Primavera esteve longe de surpreender. Houve delírio cénico e um intenso artifício sonoro, mas uma grande privação de chama criativa. Tanto barulho para nada, apetece dizer.

O Primavera fechou com o amor sangrento dos My Bloody Valentine, que há coisa de vinte anos inventaram o shoegazing, um género musical que usava e abusava da distorção, das vocalizações angelicais e do reverb. Com uma viagem ruidosa, envolvente e intensa – sobretudo sentida nas filas da frente -, os My Bloody Valentine mostraram que o passado, mesmo à distância de duas décadas, continua a soar como o tempo presente. A coisa teria resultado melhor num horário menos adiantado – e talvez num espaço menos amplo -, mas se no céu a coisa não terminou com luzes já no palco não faltou o fogo-de-artifício. Temas como “When you sleep”, “You never should” ou “Feed me with your kiss” são quadros de arte sonora, instalações em movimento com tanto de belo como de provocador.

Fica apenas um reparo em relação ao terceiro dia, que em termos da qualidade do cartaz – bem como das actuações em si – esteve a milhas dos dois primeiros dias.

Até para o ano, grande Porto!

Texto: Pedro Miguel Silva

Fotografias: Anais F. Afonso

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