Palco Principal - :Papercutz não é sinónimo de internacionalização, mas podia... Em vez de editarem e promoverem o vosso álbum de estreia em Portugal e, só depois, à semelhança do que acontece com a grande maioria das bandas nacionais, irem explorar territórios além-fronteiras, optaram por inverter a tendência e “Lylac” foi lançado, logo à partida, com o selo da editora canadiana Apegenine Recordings. Como explicam esta não muito frequente opção?

Bruno Miguel – Não foi uma opção, mas um acaso. Na altura de procurar uma editora para o álbum de estreia “Lylac”, enviei uma demo para editoras nacionais e estrangeiras. O interesse veio, sobretudo, de editoras estrangeiras. A editora de Montreal, a Apegenine, foi uma delas e achei que o “Lylac” fazia sentido na sua estética. A partir daí, temos sempre trabalhado com editoras internacionais, embora com uma pequena distribuição em Portugal. O mercado internacional continua a ser aquele em que, aparentemente, fazemos mais sentido. Com este novo álbum, seria bom mudar um pouco isso, mas os :papercutz são um produto da globalização e, como tal, fazemos música para o mundo.

PP – Concordam, então, comigo quando digo que o percurso do projeto tem sido mais valorizado no estrangeiro – Ganharam, em 2008, o 2º prémio do International Songwriting Competition; em abril de 2009 venceram na categoria O the beaten track do The People’s Music Awards; foram destacados, nesse mesmo ano, com a distinção Ones to Watch do Myspace Internacional; contribuíram para a combinação galardoada na edição 2010 do Protoclip, Festival Internacional du Clip Musical, em Paris; foram um dos 62 selecionados para a Red Bull Music Academy, em Nova Iorque, entre quatro mil candidatos, etc. – do que propriamente em Portugal, onde ainda não conquistaram atenção semelhante. Como isso vos faz sentir?

BM – Tenho percebido, até por conhecidos noutras áreas, que não somos os únicos a quem isso acontece. A verdade é que não há grande tradição no género de música que fazemos em Portugal, e não existem outras bandas nacionais a quem nos possam associar. Há, no entanto, meios que podiam propor essa educação e que continuam a mover-se pelas mesmas fórmulas. É daquelas coisas: se, no fim, conseguirmos furar em Portugal, tudo vai fazer sentido. Se não, claro que há de ficar alguma mágoa, porque não me parece que o problema esteja do nosso lado. O importante é continuar a trabalhar.

PP - São das poucas bandas portuguesas que se podem orgulhar de terem participado, repetidamente, no South By Southwest (SXSW), no Texas. Que memórias guardam das duas participações num dos mais importantes eventos de música do mundo?

BM – As melhores memórias são mesmo das pessoas que conhecemos, de todo o mundo, depois dos concertos ou enquanto assistíamos a concertos de outras bandas. Algumas mesmo, tornaram-se amigas. E do “Texas Barbecue” – tão bom!

PP - O segundo disco de estúdio dos :papercutz chega hoje às lojas portuguesas. Curiosamente – e mais uma vez atestando a capacidade «internacionalizável» do projeto – já foi editado no Reino Unido e nos Estados Unidos em julho passado. Porquê? Por uma questão logística?

BM – Nesta fase, já somos contactados para edições, e fomos abordados por uma editora estrangeira para um novo trabalho. No entanto, já tive experiências com edições em compilações nacionais, como a “T(h)ree” – uma compilação que junta novos artistas de Portugal, Hong Kong e Macau – ou os “Novos Talentos Fnac”. Fomos, inclusive, abordados pelo Henrique Amaro, que sempre nos tem apoiado, com o projeto “Optimus Discos”, para a edição nacional do álbum. Infelizmente, por questões de atraso na produção, não foi possível encaixar o lançamento nos prazos que nos apresentou. Mas a sua reação positiva ao que ouviu despertou em mim a vontade de encontrar uma casa nacional.

PP – E encontraram a Rastilho…

BM – Sempre achei muito interessante o trabalho que a Rastilho tem desenvolvido. Aliás, já tinha trabalhado com eles na edição de um EP com uma remistura que fiz para os peixe : avião. O que fizemos foi mostrar o álbum ao manager da editora – o Pedro Vindeirinho – que olha para lá dos géneros e que tem acompanhado as melhores bandas nacionais, e que percebeu que tínhamos algo diferente e novo para oferecer, propondo-nos assim a edição. M

PP - O que muda quando há uma editora portuguesa por trás do lançamento de um disco, por oposição ao que aconteceu com o vosso álbum de estreia?

BM – Há um maior apoio a nível de meios e pessoal, e sinto, no geral, um processo mais estruturado, com várias pessoas a trabalhar na edição. Isto permite-nos focar na parte que nos compete apenas – nos concertos e nos atos promocionais, como esta entrevista.

PP – Em “The Blur Between Us” apostaram num som mais expansivo, mais negro, quebrando com o lado mais intimista de “Lylac” Porquê uma nova fórmula?

BM – A ideia por trás do conceito do álbum é retratar a história de uma personagem que, através da perda de alguém que lhe é importante, reconhece a sua própria mortalidade, debruçando-se sobre o mistério que é a vida. Não conseguiria ilustrar musicalmente esta história sem pensar em sons mais melancólicos. Os concertos e as remisturas para as quais tenho sido convidado também serviram para perceber que havia um tipo de melodia e composição que não tinha explorado e pelo qual me comecei a interessar. Há uma grande beleza na música com uma sonoridade melancólica e épica, na qual me revejo de momento.

PP - Contaram, neste novo álbum, com a produção de Chris Coady, que já trabalhou com nomes como os Beach House, Yeah Yeah Yeahs, TV On The Radio… Como se sentem sabendo que não é habitual o Chris trabalhar com bandas fora dos Estados Unidos mas que, não obstante, aceitou trabalhar com vocês?

BM – Honrados. Mais tarde descobri o porquê de ter aceitado trabalhar connosco: é que o álbum referencia sonoridades de bandas que são das suas preferidas de sempre.

PP - De que forma ele influenciou o som final do novo álbum?

BM – Ele acompanhou à distância o fim da composição, as gravações… Mas foi em Nova Iorque que as peças do puzzle foram completadas e se produziu, se assumiu, através da mistura, o tipo de efeitos (usámos muito material antigo, analógico), novas gravações, alinhamento, a forma do álbum e como este vai ser percecionado pelos ouvintes. Houve, inclusive, a hipótese de todas as gravações serem feitas lá, mas, pela facilidade de tempo em trabalhar as vozes e porque tivemos arranjos de metais e cordas interpretados por músicos portugueses, contámos com o nosso engenheiro de som que nos acompanha ao vivo – o Ricardo Gandra.

PP - Disseram outrora, numa entrevista, que “todos os álbuns são, para vocês, uma espécie dum ponto final parágrafo” Terminadas as apresentações ao vivo de “The Blur Between Us” como vai ser escrito o parágrafo seguinte da carreira dos :papercutz?

BM – Engraçado que ainda no outro dia pensei nisso pela primeira vez! A verdade é que os concertos que se seguem acabam por ser importantes nesse tipo de conclusões, mas penso que será algo num formato mais reduzido. Este álbum inclui uma visão alargada do que a música dos :papercutz pode ser, com cordas, metais, uma série de instrumentos acústicos e várias pessoas envolvidas. Mais tarde, gostava de criar temas num formato mais simples, com instrumentos puramente eletrónicos e todas as suas falhas, gravados em poucos takes.

PP - Para já, como estão a ser preparados os concertos de apresentação deste disco? Com que formação tencionam apresentar-se em palco?

BM – Já temos dado alguns concertos com uma formação nuclear e com mais um essemble de cordas e metais, sendo que estamos a experimentar as várias fórmulas possíveis de apresentar este novo trabalho, tendo em conta o espaço. Em comparação com concertos de apresentação do primeiro álbum, estes são mais energéticos e com uma carga dramática.

Sara Novais

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