“Azáfama somos nós, somos voz”. A frase, dita por Martim Torres no final do seu concerto, retrata na perfeição o clima de comunhão vivido no Teatro do Bairro no passado sábado. Foi com performances curtas, mas cheias de surpresas, que se fez a festa.



A noite não começou de forma auspiciosa. A morada no evento do Facebook apontava para a Rua Luz Soriano, mas esse acesso era apenas para os artistas da Azáfama, que esperavam despreocupadamente entre shots de whisky pelo sinal de entrada. Afinal era preciso ir dar a volta, só que na Rua Caetanos não havia vivalma. Os potenciais espectadores acumulavam-se e a impaciência aumentava, agravada pelo facto de se ouvirem aplausos do interior do edifício.

Finalmente abriu-se uma porta e foi dada a explicação: estava ainda a decorrer uma performance teatral que já devia ter acabado, sendo que a Azáfama nada podia fazer para evitar o atraso. Ao entrar, via-se um Teatro do Bairro transfigurado, com os bancos chegados atrás para criar espaço para a plateia. Ecoavam "A Hard Day’s Night" e "She’s Lost Control" (introduzir aqui piada sobre o facto da marca de preservativos Control patrocinar o evento), quando João Gil sobe ao palco e começa a tocar no teclado, atraindo com sucesso os ainda poucos presentes do balcão para a plateia, e introduz os Cachupa Psicadélica.

Coube ao projecto de Lula’s iniciar as actividades com a sua música “para fazer fotossíntese”, como o artista a descreve. Para uma sonoridade díficil de rotular (e de perceber, para quem não entende crioulo), esta parece ser uma etiqueta adequada, já que o casamento das duas guitarras de Lula’s e Kay Limak, aliado à percussão de Jorge Machado, induz um sentimento de tranquilidade, a chamada “boa onda”. Foi um concerto muito curto, onde só houve espaço para “¾ de Bô” (que é “sobre a maravilhosa relação do cabo-verdiano com a água… ardente”) e uma última música que chegou a assumir contornos quase ameaçadores pelo crescendo de distorção nas guitarras.

Segue-se Vitorino Voador, projecto de João Gil, que a este junta a sua participação nos Diabo na Cruz e nos You Can’t Win Charlie Brown, entre outros. E foi com três membros destes últimos que cantou "From My Soothing Mouth" do Diffraction/Refraction, demonstrando uma bonita conjugação das 3 vozes. Talvez pela pressão dos horários, houve apenas mais uma música, tocada com João Pinheiro, dos TV Rural, na bateria. A faixa, a figurar no lançamento que deverá sair este ano, traduziu-se num momento de emoção para João Gil, especialmente pela repetição da frase “Quem não precisa de afecto?”, já em acapella, pelo público.

(II), o mais recente lançamento de Capitão Capitão

Com a entrada de Capitão Capitão, João Gil nem precisava de ter saído do palco, já que foi convidado para tocar piano em “Memórias Curtas”, do recente "(II)". O rock do projecto de J.P. Mendes foi o primeiro a encher verdadeiramente as medidas do Teatro do Bairro, beneficiando de boa qualidade de som (que, aliás, foi uma constante durante a noite). A cumplicidade dentro do elenco da Azáfama fez-se notar, com uma versão nova e mais rockeira de "O Grande Mentiroso" a ser tocada com quatro dos cinco elementos dos Trêsporcento. A sua performance findou-se com "O Dia em Que Esses Olhos Brilharam", original, lá está, dos Trêsporcento, despida em duas guitarras saudosas, que só não teve o todo o impacto que merecia porque a conversa cacofónica imperava na plateia (Paulo Furtado, o que farias tu?).

Em registo de celebração deu-se o pseudo-regresso dos Trêsporcento. Desfalcado de Tiago Esteves, que está a viver na Austrália, o por agora quarteto contou com vários convidados para fazerem a vez de vocalista. Se “Cidade” (dedicada a Sidney, percebam lá porquê) contou com os préstimos fadistas de Rodrigo Rebelo Andrade e “Veludo”, com J.P. Mendes, meteu a malta a dançar, já “Cascatas” foi apoteótica.

Com os dois anteriores vocalistas mais Martim Torres no coro e David Jacinto na voz, "Cascatas" foi um momento de emoção visceral, especialmente com David a dançar tresloucado no seu jeito particular, qual Ian Curtis. É também de notar que os Trêsporcento, ao vivo, perdem aquele carácter “redondinho” de que as bandas Indie Rock são acusadas e substituem-no com outra intensidade. Tal ficou provado com “Quero Que Sejas Minha”, atacada pelo baixista Salvador Carvalho e por um dos guitarristas Pedro Pedro com a convicção de quem não é grande cantor mas dá tudo em palco e com a honestidade de quem acaba com um “obrigado e desculpem qualquer coisinha”.

Recentemente ligados à Azáfama e com o EP Barba debaixo do braço, os TV Rural deram início à sua actuação com “Correr de Olhos Fechados”. Sendo provavelmente a banda mais com mais experiência do cartaz (a sua primeira demo data de 2000), são também os mais idiossincráticos, com um rock de melodia peculiar e menos imediata e letra por vezes hermética. Têm, no entanto, aquela “ginga tuga”, ainda para mais quando vão resgatar trejeitos da música tradicional portuguesa como em “Quem Me Chamou” David Jacinto, já tinha referido, é um espectáculo dentro do espectáculo, dançando e esperneando-se pelo palco com uma vitalidade impressionante. “Escafandro” e “Saio Daqui a Olhar em Frente” demonstraram novamente um talento para o refrão inteligente e menos óbvio e “Eu no Muro”, com um baixo bem possante, resultou no fim da bela prestação.

 Barba foi lançado a 10 de fevereiro

A última banda a subir ao palco, que infelizmente teve menos tempo de antena, foi também aquela que tem granjeado mais louros junto da crítica portuguesa. O Martim, banda de Martim Torres, conhecido pelas suas participações musicais no 5 Para a Meia-Noite e por ser contrabaixista de B Fachada, iniciou a sua curta performance justamente com “Tu Não És o B Fachada”, repleta de vozes em coro afinadinhas e assobios. O pop rock mais ligeiro de O Martim foi um bom contraponto aos TV Rural, provando que as músicas não precisam de ter temas sérios para serem boas. A prova disso foi “Honda Blues”, ode ao automóvel japonês em detrimento de Cadillacs ou Volkswagens, que contou com um solo bem bluesy de Bernardo M.Oliveira (que já tinha tocado com Capitão Capitão).

No fim, como não podia deixar de ser, o Teatro do Bairro ficou imerso em “Banho Maria”. Para cantar com ele esta faixa contra a “abstinência cansativa”, Martim convidou PZ, Rodrigo Rebelo Andrade e o radialista Rui Santos, cada um com uma entrega diferente. Mas se o estilo mais monótono de PZ e o ligeiro desconforto e Rodrigo não convenceram, já Rui Santos foi um animal de palco, chegando a roubar as atenções do próprio Martim.

Seguir-se-ia a actuação de PZ, eximo na arte de parecer que se está nas tintas (estava de calças de pijama) e conhecido pelo êxito “Cara de Chewbacca”. “Croquetes”, “Mundo” e “Autarquias” foram algumas das músicas que o portuense cantou enquanto um casal de estrangeiros dava show no balcão superior. Não ficámos para a after-party com TUPÃ CUNUN, Hombres Con Hambre e uma batalha entre DJs da Azáfama e Homem Temporariamente Só (Diego Armés) mas, se até então a noite tinha sido de festa, tudo indica que os festejos que perduraram pela madrugada tenham seguido o mesmo rumo.

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