Foi num cenário escuro e elegante, no backstage do Coliseu dos Recreios, que os Dead Combo apresentaram a Lisboa na sexta-feira o seu novo “A Bunch of Meninos” e revisitaram trabalhos antigos. Sala cheia e uma hora de arrepios.

O cenário estava adornado com flores, molduras clássicas e projecções de vídeo ao sabor das músicas, mas o pano escuro viria a abrir-se para dar lugar à magnífica vista da plateia do Coliseu. Nesse momento, os telemóveis ergueram-se por contágio. A beleza da sala encaixou como uma luva ao som da dupla.

Pedro Gonçalves alternou entre a guitarra, o contrabaixo, a melódica e o piano, mas foi Tó Trips quem esteve sempre mais inquieto: sentado, envolvido e a contorcer-se com a guitarra, tornou mais intensos os acordes e não deixou dúvidas sobre um dos grandes segredos do sucesso dos Dead Combo: a tremenda cumplicidade com a música e com os instrumentos.

“Povo que cais descalço” e “Waiting For Nick At Rick’s Cafe” marcaram um início mais calmo. Só depois da segunda música é que Tó Trips e Pedro Gonçalves levantaram a cabeça e começaram a introduzir alguns temas. “Pacheco” é dedicada a um guitarrista de Fado, “Rumbero” refere-se à marca de wiskhy vendida n’A Brasileira, «tão boa que só vendem aos turistas» e “Dona Emília” é uma senhora que trabalha na Galeria Zé dos Bois e «põe a malta na ordem» na sala de ensaios (estava nas primeiras filas e ofereceu um ramo de flores aos artistas, retribuído com um abraço).

Não é fácil manter o público agarrado ao espectáculo de início ao fim num concerto exclusivamente instrumental, mas a imprevisibilidade das músicas e as variações que se sobrepõem a qualquer estilo musical impediram qualquer sensação de monotonia.

Demos um passo de tango em “Rodada”, acelerámos com “Miúdas e Motas” e ouvimos o maior aplauso da noite para a antiga “Eléctrica Cadente”. Mas o melhor momento da noite só pode ter sido em “Mr. Snowden’s Dream”: a sala completamente silenciada, num ambiente gelado e de cortar a respiração, ouviu e estremeceu com as notas de piano tocadas por Pedro Gonçalves. Também digno de registo foram “Welcome Simone” e “Zoe Llorando”, dedicadas às filhas.

O tempo avança e a relação com o público fica mais informal. Pedro Gonçalves levanta-se fala pela primeira vez já na recta final: «Estou um bocado comovido com isto tudo. É esquisito, mas incrível». Anunciou também que a 4 de Dezembro há novo concerto no Coliseu, desta vez sem ser de costas para a sala principal, e agradeceu a muita gente pelo bonito percurso dos Dead Combo. Nós agradecemos a mestria.

Antes de Malibu Fair, Tó Trips pergunta quem se lembra da Feira Popular. Perante uma resposta mais entusiasmada da plateia, o próprio interrompe com “Calma, que o pessoal não se pode divertir muito acima das suas possibilidades”. A despedida deu-se com Lisboa Mulata, um registo mais imediato que em muito contribuiu para a popularização da banda. Aconteceu ali magia.

Fotografias por Rita Sousa Vieira

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