Num ano normal, o grande baile da passagem de ano teria inaugurado a temporada do Coliseu Micaelense, por onde passam anualmente 40 mil a 47 mil espectadores, adiantou à Lusa o diretor do espaço, Helder Fialho.

Em 2021, foi preciso chegar à noite de 06 de março para que o aviso sonoro que antecipa cada espetáculo desse as boas-vindas ao “primeiro evento do ano”.

Foi com o concerto de Pedro Abrunhosa em Ponta Delgada, previsto inicialmente para 28 de fevereiro, que se deu o pontapé de arranque nas atividades de espetáculos nos Açores, enquanto o setor da cultura continua confinado no resto do país.

“Simbolicamente, este recomeço dá-se nos Açores, por mérito do combate ao vírus, que aqui foi feito de uma forma exemplar, também. E no continente as coisas estão a melhorar a olhos vistos. Simbolicamente, uma vez mais, a cultura dá sinal de esperança ao país”, destacou o artista, em declarações aos jornalistas.

O nome escolhido para o reinício de atividade do Coliseu gerou tanto interesse que os 410 lugares disponibilizados, de um total de 1.291, foram “vendidos em dois dias” e, “durante esta semana e a semana passada, a procura foi enorme”, relata o diretor do Coliseu. Mas houve quem tivesse criticado a opção desta empresa municipal, por não abrir com artistas regionais.

Para Nuno Furtado, que veio da Ribeira Quente, “acima de tudo”, porque a sua “mulher é apaixonada por Pedro Abrunhosa”, a questão de abrir com artistas regionais “foi um tema já muito falado no grupo de amigos” e com os “colegas de trabalho”.

A conclusão a que chegou é simples: “Não vou mentir, há bandas açorianas que fazia sentido estarem cá, como os The Code, mas, se é para fazermos, vamos fazer à grande, e à grande é com Pedro Abrunhosa, peço desculpa”.

Quando falava à Lusa, ainda não sabia que nessa noite teria também a oportunidade de ver o músico açoriano Bruno Ávila, acompanhado pela pianista Ana Paula Andrade, para abrir o concerto, e também Marisa Oliveira, vocalista, precisamente, dos The Code, que cantou algumas canções com Pedro Abrunhosa.

Para Abrunhosa, “é uma obrigação partilhar o palco nesta luz, nesta brecha, com artistas de São Miguel”.

Helder Fialho avança que, para 2021, o Coliseu Micaelense tem “definidos 26 a 30 eventos”, com os quais espera, se tudo correr bem, conseguir trazer cerca de dez mil espectadores àquela casa.

A estratégia é, “durante o 1.º semestre, realizar o maior número possível de eventos com artistas regionais e nacionais e, no 2.º semestre, a partir de setembro, com artistas internacionais, se a situação melhorar”.

O responsável assumiu o compromisso de ter “50% [de] artistas regionais, 50% [de] artistas nacionais e internacionais” no programa.

Para o guitarrista Félix Medeiros, colega de banda de Marisa Oliveira, as críticas sobre o nome escolhido para atuar não fazem sentido. “O Pedro Abrunhosa é do nosso país. Há que apoiá-lo quando ele vem cá, da mesma maneira que nós queremos ser apoiados quando vamos lá [ao continente]”, afirma.

O músico mostra-se feliz pela retoma que o concerto assinala. “Para já, é a minha terra… E quer dizer que as coisas estão a ficar melhores e mais controladas, até porque também temos o único estádio com público do país [da I Liga de Futebol]”, o estádio de São Miguel, onde joga o Santa Clara.

Por outro lado, critica a dualidade de critérios que proíbe os eventos culturais, porque “vai-se a um restaurante, tira-se a máscara e está tudo bem; vai-se para Lisboa ou para outro país qualquer de avião e vai tudo colado, mas para vir a um concerto é um horror”.

“A cultura é segura, apoiem a cultura, e não vamos deixar isto morrer. Precisamos mesmo de trabalhar”, afirma o guitarrista, para quem a paragem foi “um peso enorme”.

Essa paragem custou também a quem consome cultura, como João, de 37 anos, que estava com vontade de assistir a um espetáculo “há quase um ano” e esta “foi a oportunidade”.

“Nós somos do continente, estamos cá a passar uma temporada, foi uma oportunidade que tivemos e não deixámos fugir. Aqui dá para viver, a diferença é essa. Aqui vivemos, lá está mais complicado”, prosseguiu.

Vive o público, vivem os trabalhadores da cultura, como os 13 funcionários do Coliseu Micaelense, que estiveram em lay-off durante o período de encerramento, e vivem os artistas, para quem “o palco é onde a criação se concretiza, porque ela é apenas teoria se fica” guardada, assegura Abrunhosa.

“O palco é o sítio do exagero, da partilha, é o sítio dos olhos nos óculos, no meu caso, é o sítio da convergência das almas, é uma espécie de liturgia laica. É uma metade da outra metade invisível”, remata.

Tudo o que se passa à frente e atrás das câmaras!

Receba o melhor do SAPO Mag, semanalmente, no seu email.

Os temas quentes do cinema, da TV e da música!

Ative as notificações do SAPO Mag.

O que está a dar na TV, no cinema e na música!

Siga o SAPO nas redes sociais. Use a #SAPOmag nas suas publicações.