Estraca (Carlos Guedes), de 22 anos, começou a divulgar temas de “Dar Vida” há cerca de um ano, o que faz com que este disco seja “quase como uma compilação”. “Boom Bap”, o nono e último tema no alinhamento, foi o primeiro a surgir, em janeiro do ano passado.

Os nove temas juntos formam um disco “mais maduro, mais crescido” do que o álbum de estreia do rapper, “Estraca”, editado em 2018.

No álbum de estreia, Estraca ‘rappava’ sobre “esquemas sem gravidade/presos de primeira classe/são postos em liberdade”, em “Suicídio Político”, e sobre “lutar por uma utopia/criar um planeta novo”, em “Planeta novo”.

Em “Dar Vida”, essa “vertente interventiva está lá muito explícita”, por exemplo em “Bela Adormecida”, tema no qual aborda a violência doméstica, ou “Mitos urbanos”, em que fala do que é crescer num bairro tido como problemático.

Quando apareceu, havia quem dissesse que era o novo Valete, “por ser interventivo e o Valete ser um dos maiores rappers de intervenção em Portugal”. “Mas como rappers não temos nada muito parecido. O Valete influenciou-me desde miúdo e, se me disserem, ‘és o novo Valete’, para mim é um orgulho, como ser um jogador da segunda divisão e dizerem-me que sou o novo Ronaldo. É sempre bom ser comparado com grandes nomes, grandes rappers e, neste caso, um ídolo”, afirmou.

As batidas continuam a ser semelhantes, mas em “Dar Vida” Estraca tentou “variar um pouco mais as sonoridades, não ter só instrumentais da onda ‘Boom Bap’, do hip-hop clássico”.

Acabando por “juntar assim uma ‘vibe’ [vibração, em português] mais africana, como na música com a Selma Uamusse [“Makweru”] e fugindo um pouco” ao estilo que o caracteriza com “Voltar atrás”, tema em que participa Matay.

“Sempre fui influenciado por várias sonoridades e acho que neste álbum mostrei um pouco dessas influências que tenho”, referiu.

Estraca, que nasceu em 1997, cresceu e vive no Bairro da Cruz Vermelha, na zona do Lumiar, em Lisboa, construído no final da década de 1990 para acolher os moradores da antiga Musgueira.

Crescer ali “teve bastante influência” no som que faz hoje, até porque os primeiros rappers que começou a ouvir não eram “grandes nomes do rap nacional”, mas sim rappers locais, que “faziam um rap mais underground”.

“Sem dúvida que o bairro me influenciou muito muito muito e, se calhar, se não fosse o bairro, não tinha encontrado este gosto para fazer as rimas que faço hoje”, disse.

Estraca começou a escrever rimas “quase como um diário”. “Aprendi a desabafar com aquilo, em modo de rimas, fui escutando outros rappers aqui do bairro, e depois apareceu a oficina, que nos deu oportunidade de conhecer outros ‘rappers’, como o Sam The Kid, o Valete, o NBC”, recordou.

A oficina de que fala é a Oficina Portátil das Artes (OPA), um projeto de intervenção social através das práticas artísticas, que há dez anos entrou no Bairro da Cruz Vermelha.

“Foi um projeto mesmo muito importante na altura, porque eu queria fazer isto [rap], mas não sabia muito bem como, nem muito bem se queria fazer isto para sempre”, partilhou.

Com o OPA, participou em concertos no centro de Lisboa, "porque o projeto tinha aquela cena de levar a periferia ao centro” e contactou com ‘rappers’ e músicos que partilhavam histórias que o iam motivando “e fazendo acreditar que é possível”.

Agora, participa num projeto idêntico, do outro lado. “Dá-me imenso gozo fazer isso, dar aquilo que eu recebi, poder dar aos outros e motivar os miúdos”, referiu.

Estraca reconhece que foi a OPA que lhe “abriu o mundo”, e ele soube “aproveitar as oportunidades”. “Soube agarrar bem as oportunidades, que é muito importante”, disse.

Foi também graças à OPA que saiu pela primeira vez do país, aos 17 anos, rumo à Sérvia. Foi na oficina que conheceu e colaborou com os Farra Fanfarra, que, mais tarde o desafiaram a ir à Sérvia participar no projeto “Music for Human Rights” – “éramos divididos em grupos e tínhamos uma semana/uma semana e meia para fazer duas ou três músicas sobre os Direitos Humanos para apresentar num festival” - , que depois o levou também à Alemanha, Itália e Israel.

“Nunca tinha saído daqui, deste mundo que é o bairro. Aventurei-me e lá fui eu, sem conhecer ninguém e sem saber falar praticamente nada de inglês”, recordou.

Na mesma altura em que saiu pela primeira vez de Portugal, passou a frequentar uma escola fora do bairro, o Liceu Passos Manuel, no centro de Lisboa, algo que “também foi muito importante”.

“Foi quase tudo ao mesmo tempo e foi-me abrindo um mundo novo, que eu não conhecia, e foi mesmo muito importante para o meu percurso”, sublinhou.

É no bairro que vai, no dia 28 de março, concretizar uma ideia em que “já tinha pensado há uns três anos”: “Um dia tinha que fazer um concerto à porta de casa”.

Em Lisboa, o concerto de apresentação de “Dar Vida” vai ser no Bairro da Cruz Vermelha, em frente à casa de Estraca e com “vários rappers locais para fazer o ‘warm up’ [aquecimento, em português]”.

“Acho importante o pessoal vir conhecer de onde é que eu venho, de onde é que eu sou, e acho engraçado também o facto de juntar o pessoal do bairro com o pessoal de fora. Em vez de levar a periferia ao centro, trago o centro à periferia, ao contrário daqueles projetos em que eu participava”, afirmou.

No Porto, o concerto é já hoje, no Hard Club. Os ‘warm ups’ serão feitos por Bdjoy e DJ Kronik, e Estraca terá “vários convidados que participam no álbum, como Kosmo”.

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