As questões de género são a principal preocupação do programa, admitiu à Lusa José Capela, da companhia, ainda que existam outros destaques, como a estreia de uma produção da companhia no seu próprio espaço, “Money”, uma colaboração com a dramaturga Deborah Pearson, que seguirá depois para o Nacional D. Maria II, em Lisboa, ou o espetáculo de Maria Jorge “#WomenandPower”, a partir de Mary Beard.

“Em 2018, notámos [no festival Fringe em Edimburgo] muitos espetáculos no espírito #MeToo, com ênfase no feminino, no feminismo, e muitas vezes sobre a mulher como vítima, e interessou-nos. Achámos que podíamos fazer Uma Família Inglesa que ecoasse essa preocupação”, justifica José Capela à Lusa.

A exceção é “Money”, peça que se relaciona com o tema do dinheiro, escolhido pela companhia para 2019 e evidenciado em “Dinheiro”, a grande produção estreada em maio, no Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, no Porto.

“Money”, apresentado de 2 a 6 de outubro, traz de volta ao festival a obra da dramaturga Deborah Pearson, aqui a assinar uma peça que usa sitcoms para falar de dinheiro, com o público da peça a colocar-se no papel de uma plateia que assiste “à gravação de dois episódios de uma sitcom”.

Os próprios atores, explica Maria Jorge, do elenco e assistente da direção de cena de Jorge Andrade, interpretam outros atores numa reflexão sobre “como os mecanismos da sitcom se ligam à cena teatral”, por um lado, e por outro o dinheiro como “alavanca para espoletar um conjunto de ações”.

“Causa uma disrupção no espetáculo. O primeiro episódio é canónico. Deborah acentuou um pouco a patetice das sitcoms mas respeitou. (...) No segundo episódio, a personagem da Maria introduz o dinheiro e apercebe-se de que os outros não sabem o que é o dinheiro. Acham que ela está maluca”, revela José Capela.

Um ator apercebe-se, depois, dos “risos gravados, enquanto personagem e não como o ator” que é, ele próprio, uma personagem.

E como “essa personagem da sitcom é um filósofo, conclui que estão todos dentro da ‘Caverna’, de Platão”, a que se segue um “caos que leva à própria decadência física do espetáculo e até do cenário”.

Depois apresentado em Uma Família Inglesa, “Money” será levado ao Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, de 17 outubro a 3 de novembro.

Pela primeira vez, a Mala Voadora apresenta no evento uma peça fora do próprio espaço, no Mosteiro de São Bento da Vitória, assinalando a primeira coprodução da companhia com o Teatro Nacional São João (TNSJ), ao fim de 16 anos.

Trata-se de “Locker Room Talk”, uma peça do dramaturgo escocês Gary McNair, que funciona “como um espelho” para o discurso misógino e machista, colocando as mulheres nesse papel, num texto dramático chocante que, aqui, invoca por interesse “a deslocação da fala” para entender não só o lado político, mas também “mecanismos próprios do teatro”. A peça fica em cena de 3 a 4 de outubro.

O certame abre com “It’s True, It’s True, It’s True”, uma produção do Breach Theatre que coloca em cena, a 27 e 28 de setembro, o julgamento de Agostino Tassi, em 1612, acusado de violação da pintora Artemísia Gentileschi.

Laura Murphy apresenta no Porto, no dia 29, “Contra”, que mistura circo e stand up, num “solo de contradições ao estilo do cabaré”, marcado pelo teatro físico e dedicado à exploração do corpo feminino.

“Oh Yes, Oh No”, sobre “fantasias sexuais que não estão alinhadas com as políticas que defendemos”, é a proposta de Louise Orwin, apresentada a 30 de setembro e 1 de outubro, e reflete sobre personagens, cultura pop e outras questões através de ‘role playing’. Um trabalho que foi bem recebido pela crítica durante o Fringe.

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