“A ideia de maldição é uma ideia que para mim paira no espetáculo. O espetáculo é sobre decidir viver ou morrer e sobre a diferença, ou não, entre as duas coisas. É sobre saltar ou não. É sobre suicidar-se ou não. É muito curioso que quase todas as encenações escolhem o suicídio da menina Júlia. Contudo, o que Strindberg diz é: Júlia sai. É tão ambíguo quanto isto, fala de uma navalha e Júlia sai. Na verdade, ela pode ter viajado, ela pode-se ter matado. Portanto, as contaminações aqui [estão no] o reencontro com a minha geografia primordial, que é a brasileira, e uma austeridade germânica”, explica Renata Portas, a encenadora da peça de teatro.

“Menina Júlia”, para maiores de 16 anos de idade, estreia-se na próxima quarta-feira, dia 9 de fevereiro, às 19h00, no Teatro Carlos Alberto, na Baixa do Porto.

"Menina Júlia" é uma peça que aborda também o amor e os seus desencontros.

“Acho que [August] Strindberg era profundamente apaixonado, mas depois não conseguia lidar nem com o amor, nem com a pulsão sexual, nem com o desencontro do outro. Gosto muito daquela frase que nós ouvimos – 'O mundo está cheio de amor, o que tem é que não dura muito' - e essa é uma das frases mais pertinentes que já ouvi sobre a questão amorosa”, destaque Renata Portas.

A questão da mulher na sociedade “preocupa” a encenadora, como a própria assumiu na conferência de imprensa, que esta tarde acompanhou o ensaio de imprensa, referindo-se aos vários feminismos, tema também trazido a palco pela mão da menina Júlia e da criada Cristina, personagens da dramaturgia de Strindberg.

“No final do século XIX, Strindberg escrever sobre uma mulher [Júlia] que quer ter encontros sexuais, e mais do que isso, quer encontrar-se a si, quer viajar, quer ser autónoma; e também da Cristina, uma criada com planos para o futuro. Isso importa-me muito, pois são duas visões diferentes que eu amo de modo igual. São duas mulheres diferentes. São duas visões. Para mim enquanto encenadora e enquanto mulher, temos de falar de femininos. Enquanto mulher temos de reivindicar todos os espetros possíveis de felicidade e de definição de género. Portanto, tentámos sair das convenções, do espectável”, resumiu Renata Portas.

"O espetáculo é sobre a morte. Mas este olha-a nos olhos, agora enamorados, e diz-lhe de mansinho: 'Não me leves já, fica aqui comigo'. E ela, entre funks e minuetes, surpresa e espantada, ansiosa de conhecer o mundo dos homens, concede, suspirando”, lê-se no dossiê de imprensa entregue aos jornalistas.

Em a “Menina Júlia” de Renata Portas, encontra-se uma menina contaminada pela "Índia, pelo punk, pelo Brasil; [ela] é múltipla, é caleidoscópica", há um jogo entre tentar “invocar literatura, pintura e a música, interagindo com o teatro. Fugir da questão da narrativa, o sequencial (…), para fazer contaminações e derivações”, concluiu a encenadora, que dedica o espetáculo a sua avó e ao poeta simbolista francês Stéphane Mallarmé.

A peça tem poemas de Caio Gabriela e Roberto Piva, um autor maldito de São Paulo, nos anos de 1980-1990, de inspiração 'beatnik'.

Com tradução de Augusto Sobral e dramaturgia de Hugo Miguel Santos, a peça tem espaço cénico de Leonie Kuht, figurinos de Jordann Santos, assistência de encenação de Pedro Manana, e interpretação de Ana Cris, Sílvia Santos e Pedro Damião, com a DJ Redshoes (Filipa Varanga).

“Menina Júlia” pode ser vista de 9 a 19 de fevereiro, no Teatro Carlos Alberto, no Porto, sempre às 19h00 (exceto aos domingos que é as 16h00).

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