Estilizado “Mon€y”, a encomenda da companhia portuguesa a Pearson insere-se no tema geral para 2019, o dinheiro, e funciona como a segunda parte de um “díptico que não foi intencional” com “Dinheiro”, que se estreou em maio, avançou à Lusa Jorge Andrade, que dirige a produção.

A peça, a primeira estreia da companhia no próprio espaço, será apresentada pelas 22:00 de quarta e quinta-feira, sábado e domingo, além de sexta-feira, pelas 18:00, e é o último de seis espetáculos de “Uma Família Inglesa”, um ciclo de programação dedicado a peças britânicas ou criadas com artistas do Reino Unido, este ano com um foco no feminino.

A exceção é “Money”, peça que se relaciona com o tema do dinheiro, e evidenciado na grande produção estreada em maio, no Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, no Porto.

Em 2018, Deborah Pearson apresentou neste festival “History, History, History”, voltando agora para assinar uma peça que usa ‘sitcoms’ para falar de dinheiro, com o público do espetáculo a colocar-se no papel de uma plateia que assiste “à gravação de dois episódios de uma ‘sitcom’”, explicou à Lusa Jorge Capela.

Os próprios atores, nota por seu lado Maria Jorge, do elenco e assistente da direção de cena de Jorge Andrade, interpretam outros atores numa reflexão sobre “como os mecanismos da ‘sitcom’ se ligam à cena teatral”, por um lado, e por outro o dinheiro como “alavanca para espoletar um conjunto de ações”.

“Causa uma disrupção no espetáculo. O primeiro episódio é canónico. Deborah acentuou um pouco a patetice das ‘sitcoms’ mas respeitou. (...) No segundo episódio, a personagem da Maria introduz o dinheiro e apercebe-se de que os outros não sabem o que é o dinheiro. Acham que ela está maluca”, revela José Capela.

Um ator apercebe-se, depois, dos “risos gravados, enquanto personagem e não como o ator” que é, ele próprio, uma personagem.

E como “essa personagem da ‘sitcom’ é um filósofo, conclui que estão todos dentro da ‘Caverna’, de Platão”, a que se segue um “caos que leva à própria decadência física do espetáculo e até do cenário”.

“À medida que se vai introduzindo o tema do dinheiro na 'sitcom', que vive alienada de um meio mais material, a estrutura vai-se destruindo e acaba por estar aí a destruição toda do espetáculo”, revela Jorge Andrade.

O espetáculo dialoga com a alegoria da caverna, explanada por Platão e na qual as pessoas vivem “convencidas de que as sombras que os acompanham são a realidade”, descobrindo depois o mundo exterior divididas entre abraçá-lo e a descrença.

“É uma metáfora estarmos na ‘sitcom’, em que nunca é introduzido o tema do dinheiro; vivem iludidas, e quando o tema chega do exterior, tudo começa a ruir”, nota o diretor do espetáculo, numa divisão que acontece, depois, no elenco, entre uma ação política da arte e um trabalho mais abstrato.

Há “alguma 'metateatralidade'”, mas sobretudo uma proximidade entre a peça e o habitual trabalho da companhia, neste debate sobre “a intervenção política". Porque, questiona Jorge Andrade: "O que é isto? Há intervenção política e depois um passo atrás?”

Depois de apresentado em "Uma Família Inglesa", “Money” será levado ao Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, de 17 outubro a 03 de novembro, marcando uma colaboração com esta sala que poderá continuar com uma versão de Jorge Andrade de “The Future Show”, no próximo “Uma Família Inglesa”.

Quanto ao tema do dinheiro para 2019, estão para já planeadas conferências sobre o tema e uma exposição de artes plásticas.

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