A crise no mercado livreiro, resultante das medidas restritivas impostas ao país para tentar travar a propagação da pandemia COVID-19, levou as editoras a suspenderem todo os novos lançamentos.

No entanto, a morte do escritor brasileiro Rubem Fonseca, no dia 15 de abril, justifica, segundo a chancela da Porto Editora, a abertura de uma exceção para publicar “uma das suas novelas mais famosas”, e que só tinha sido publicada, em Portugal, em 2002 pela Asa.

Nesta novela, o autor, Prémio Camões 2003, parte da vida pessoal do dramaturgo francês do século XVII Moliére, para lhe dar um final diferente.

Autor de comédias clássicas como “O Tartufo”, “D. Juan” e “O avarento”, Jean-Baptiste Poquelin, conhecido como Molière, morreu em 1673, em circunstancias misteriosas, logo após a apresentação da sua última peça, “O doente imaginário” – que inspira o título do livro de Rubem Fonseca.

O escritor brasileiro pega nesse acontecimento e reescreve o final, através de uma personagem fictícia, um Marquês anónimo, amigo de Molière e amante da sua mulher, a quem o moribundo dramaturgo revela ter sido envenenado.

“No Palais Royal, acaba de ser representado 'O Doente Imaginário'. No palco, Molière, que faz o papel principal, dá sinais de mal-estar. Poucas horas depois, já em casa, deitado no leito, sussurra à única pessoa que está a seu lado: ‘Fui envenenado’. O homem que ouve esta revelação sai em busca de um padre”, descreve a editora.

O enredo desenrola-se a partir daqui, numa investigação em busca do assassino.

A narrativa transporta os leitores para a opulência e as intrigas da corte de Luís XIV, combinando personagens reais com fictícias.

O livro estará disponível a partir de 30 de abril.

Rubem Fonseca morreu aos 94 anos, vítima de um enfarte do miocárdio, no seu apartamento no Leblon, bairro da zona Sul do Rio de Janeiro.

Autor de livros como "O Caso Morel" (1973), "Feliz Ano Novo" (1976), "O Cobrador" (1979) e "A Grande Arte" (1983), Rubem Fonseca foi distinguido em 2003 com o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa, e recebeu também, por seis vezes, o Prémio Jabuti, o principal galardão da literatura, no Brasil.

O escritor era apontado pela crítica como "o maior contista brasileiro da segunda metade do século XX".

"Carne crua", o seu mais recente livro de contos inéditos, foi editado em Portugal em 2019 pela Sextante Editora.

Antes de entrar no universo da literatura, o escritor, nascido em Juiz de Fora, município no interior do estado de Minas Gerais, formou-se em Direito e construiu uma carreira de seis anos na polícia civil, como comissário, tendo-se estreado na literatura em 1963, com o livro de contos "Os Prisioneiros".

Conhecido como um acérrimo defensor da língua portuguesa, Rubem Fonseca afirmou em 2012, em Lisboa, onde veio receber a Medalha de Mérito Municipal, que mais importante do que aquela “grande honraria” era estar em Portugal, terra de todos os seus antecessores.

Num curto discurso, nos Paços do Concelho de Lisboa, o autor de "O Cobrador" disse que, juntamente com o irmão, foram os primeiros brasileiros de uma família portuguesa onde, em casa, o quotidiano era marcadamente português.

"Em casa falávamos português, minha mãe só cozinhava comida portuguesa e a biblioteca do meu pai era só de autores portugueses", disse na ocasião.

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