Todos os dias, às 20 horas em ponto, arrancam os três noticiários dos canais generalistas. Nas últimas semanas, o primeiro bloco informativo pouco foge aos momentos altos da campanha. Mas será que a televisão continua a desempenhar o papel de informar os cidadãos?

Segunda-feira, 28 de setembro. A menos de uma semana das eleições, SIC e TVI abrem "Jornal da Noite" e "Jornal das 8", respetivamente, com notícias sobre as campanhas dos principais partidos. A RTP1, ao contrário das semanas anteriores, escolhe a notícia sobre a existência de água em Marte para abrir o "Telejornal". No total,  dois milhões e 897 mil portugueses viram os blocos informativos, segundo dados da Gfk e da CAEM. Mas será que ficaram esclarecidos?

"A televisão continua a ser o centro onde tudo se desenha", defende Estrela Serrano, ex-membro do Conselho Regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), acrescentando que a responsabilidade que recai sobre repórteres e jornalistas é elevada. "É aquele antigo trabalho de gatekeeping, a seleção do que é importante. Portanto, o que chega aos cidadãos é aquilo que os jornalistas consideram que é importante mediar", esclarece em entrevista ao SAPO Mag.

"A campanha, em termos de forma, continua muito centrada na televisão tradicional" (Estrela Serrano)

José Manuel Portugal, ex-diretor de informação da RTP, partilha da ideia de que a televisão desempenha um papel importante. "Per si, a televisão já é naturalmente um meio muito importante no contacto com os cidadãos no dia a dia, muito mais no tempo de campanha, onde o papel é reforçado e sublinhado", defende.

Mas será que a televisão continua a ser a principal fonte de informação para os cidadãos?

Para Luís António Santos, professor de Jornalismo no curso de Ciências da Comunicação da Universidade do Minho, a resposta é não. "Hoje em dia, com as possibilidades tecnológicas que existem, já é muito difícil encontrar um português que se informe apenas através de um meio de comunicação", advoga.

Apesar da fragmentação das audiências, a televisão continua a ocupar um papel central na mediação da informação, nomeadamente em período de campanha eleitoral, como defende Estrela Serrano: "A campanha, em termos de forma, continua muito centrada na televisão tradicional e, portanto, quando falamos da campanha estamos sobretudo a falar da cobertura da campanha".

"Não sei se é justo para a televisão exigir que ela, nesta altura, faça um serviço completo e não sei se em algum momento o fez", defende Luís António Santos, sublinhando que a "televisão é um meio que tem algumas restrições". "A própria narrativa televisiva procura simplificar e, em muitas situações, as mensagens políticas não são tão simples assim e, portanto, há coisas que se perdem na rede", afirma.

Eleições: debate televisivo entre Jerónimo de Sousa (PCP) e Catarina Martins (BE)

E a RTP deveria fazer uma cobertura diferenciadora?

"A RTP tinha e tem de se demarcar em determinados momentos que são decisivos e que justificam a própria existência do serviço público.  Se o serviço público não se distingue dos privados, então temos de questionar a razão da sua existência", diz Estrela Serrano, analista dos meios de comunicação.

Nesta campanha, os formatos apresentados pelo operador público seguem a mesma linha dos formatos privados - entrevistas, debates e espaços de comentário. "Se a RTP é mais uma televisão, é uma televisão a mais", defende a professora de Comunicação Social.

Os debates

Eleições: Debate televisivo entre António Costa e Pedro Passos Coelho

Antes do início oficial do período de campanha eleitoral, as televisões organizaram alguns debates entre os candidatos. Pela primeira vez na história, RTP1, SIC e TVI juntaram-se para um debate único entre António Costa (PS) e Pedro Passos Coelho (Portugal à Frente).

"Critiquei desde o início o facto de a RTP não se ter demarcado daquilo que considero posições demagógicas que foram defendidas pelos representantes dos jornalistas e dos políticos que fizeram a negociação da alteração à lei da cobertura eleitoral", explica Estrela Serrano.

Para Luís Santos, "o finca-pé das televisões relativamente aos debates" significou uma "diminuição do espectro de pluralismo". "Acho que se quebrou uma regra importante para a democracia", sublinha.

As sondagens diárias informam ou geram ruído?

RTP e TVI têm apostado no modelo de tracking pools, as chamadas sondagens diárias que recorrem a uma amostra reduzida.

Para Estrela Serrano, as sondagens diárias vêm acompanhadas de pouca informação. "O efeito inicial que é dizer o partido que vai vencer ou perder é muito potenciado para produzir o próprio efeito. Pode potenciar-se e tornar-se real com a perceção que cria nas pessoas e que as motiva a votar", afirma.

Luís António Santos partilha da mesma opinião, defendendo que as "sondagens são elementos frágeis da aferição da intenção de voto. Importaria às televisões, sobretudo ao serviço público, fazer um papel de desmontar estes mecanismos, fazer o papel de informar as pessoas sobre a fragilidades destes mecanismos e fazer baixar o nível de ruído da campanha", destaca, acrescentando que "os meios não nos ajudam a perceber o que é relevante".

Mais informação é igual a mais pluralismo?

Comunicação social
 

"As televisões seguem muito o modelo nós fazemos e vocês veem" (Luís António Santos)

O papel das redes sociais na informação tem-se alterado nos últimos anos. Segundo alguns investigadores, o acesso à informação tem aumentado, o que não significa que haja mais pluralismo. "Há mais informação, mas não há nem melhor, nem mais plural, nem mais diversa", salienta Estrela Serrano.

Apesar de as televisões terem mais meios à disposição, de acordo com Luís Santos, continuam "agarradas aos formatos e às formas tradicionais". "As televisões seguem muito o modelo 'nós fazemos e vocês veem'. É, portanto, muito pouco interativa e muito pouca adaptada à forma como as pessoas usam a rede", defende o professor de jornalismo da Universidade do Minho.

"Se observamos as redes, o que vemos? Vemos um mimetismo. Aliás, as televisões já se mimetizam entre si e se olharmos andam todos juntos na campanha (...) Portanto, as redes sociais funcionam como repetidores dos conteúdos dos media tradicionais",  conclui Estrela Serrano.

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