Com o regresso à normalidade possível, o SAPO Mag continua a desafiar várias caras conhecidas a fazer uma lista de filmes, séries, discos ou livros para ocupar os tempos livres. Esta semana, foi Rodrigo Areias a aceitar o desafio.

Realizador e produtor, fundador da produtora Bando À Parte, estreia esta semana nos cinemas portugueses o seu novo filme, “Surdina”, uma "tragicomédia minhota" com argumento do escritor Valter Hugo Mãe e protagonizada por António Durães e Ana Bustorff.

AS ESCOLHAS DE RODRIGO AREIAS

Surdina: a banda sonora original de Tó Trips

Rodrigo Areias: “Apesar de ter ouvido muitas vezes a música que acompanha as imagens de 'Surdina', quando ouvi o vinil, fiquei muito feliz com o resultado, que é bastante diferente do que ouvimos no filme. É um belo disco, simples, intimista, mas com um som bastante sujo de uma guitarra melancólica num quase sado-maso-fado que só Tó Trips consegue arrancar”.

Onde: "Surdina" chega às salas de cinema a 9 de julho e a banda sonora é assinada pelo guitarrista Tó Trips, um dos membros dos Dead Combo. Trata-se de uma história "sobre a delicadeza de se ser velho, do que resta ainda para sonhar e para amar quando a idade avança significativamente e o corpo se enfraquece". A estreia é acompanhada de alguns cine-concertos com música de Tó Trips: a digressão arranca no Cinema Trindade (Porto), com sessões às 19h30 e às 22h00 de 9 de julho; passa por Centro Cultural Vila Flor em Guimarães dia 10; pelo NOS Amoreiras (Lisboa) a 15; e em Aveiro a 16. Outras salas pelo país serão anunciadas mais tarde.

Máscara, Mato e Morte em São Tomé

“Se um indivíduo admite a possibilidade da feitiçaria, e de as aparências sensoriais ocultarem mais do que revelam, o mundo torna-se reencantado “

Rodrigo Areias: "Paulo Valverde não editou em vida o seu livro que foi tese de doutoramento sobre a cultura São Tomense. Este livro é uma viagem que mergulha profundamente numa cultura incrível, entre o Tchiloli, o Dance-Congo e os rituais místicos como o Djambi e aborda a possessão e o transe como partes integrantes de uma cultura que olha de forma muito particular para a relação entre visível e invisível.”

Onde: Da Celta Editora, pode ser encontrado em alguns alfarrabistas ou encomendado online. "Máscara, Mato e Morte em São Tomé" reúne a investigação etnográfica e analítica do antropólogo Paulo Valverde (1961-1999).

Harmony Korine

Rodrigo Areias: “Nos muitos filmes que vi e revi durante o confinamento, houve dois de Harmony Korine que não havia visto ainda. E achei-os absolutamente delirantes, mas num estilo único. Se 'Spring Breakers' tem uma linha ténue narrativa e assenta numa experiência sonora e visual, já 'The Beach Bum' parte de uma premissa equivalente, mas detém uma estrutura narrativa mais sólida e convencional. Foi interessante perceber esta direção no trabalho de Harmony Korine.”

Onde: "Spring Breakers: Viagem de Finalistas" (2012) e "The Beach Bum: A Vida Numa Boa" (2019) estão disponíveis em DVD e nos canais TV Cine. Conhecido pelos seus filmes terem pouca estrutura narrativa, Harmony Korine tornou-se notado aos 19 anos, quando assinou o argumento de "Miúdos" (1995), de Larry Clark.

Rough and Rowdy Ways

Rodrigo Areias: “Aos 79 anos, Bob Dylan decide fazer um novo disco e é um disco simples, belo e cheio de mensagem política. Se o single de 17 minutos Murder Most Foul era já uma pérola, o resto do disco (ou o outro disco) é-o sem recorrer a grandes efeitos. Directo e muito bonito.”

Onde: Disponível no Spotify e em CD e vinil, "Rough and Rowdy Ways" é o primeiro álbum de originais de Bob Dylan em oito anos. Uma das figuras centrais da música do último meio século, com 38 álbuns e uma infinidade de clássicos como “Blowin’in the Wind” ou “The Times They Are a-Changing”, o cantautor norte-americano conquistou as mais diversas distinções, incluindo o Prémio Nobel da Literatura e o Óscar.

Os Pré-Rafaelitas – Antologia Poética

Rodrigo Areias: "O profundo mergulho em que me encontro relativamente à realidade Pré-Rafaelita fez com que lesse muitos livros ingleses sobre este assunto. No entanto, este livro foi fundamental na minha pesquisa, não só pelo panorama poético e literário que nos dá, mas também pela contextualização muito preciosa e desformatada em relação à maioria dos textos britânicos. Dado que o contexto é a segunda metade do século XIX, em plena era Vitoriana, este livro que parte de um convite de Mário Cesariny a Helena Barbas, arranca de uma premissa diferente e traz uma abordagem mais livre sobre o assunto.”

Onde: À venda nas livrarias, editado pela Assirio & Alvim. A antologia dos poetas pré-rafaelitas reúne poemas de Christina Georgina Rossetti, Dante Gabriel Rossetti, Elizabeth Eleonor Siddal, William Morris, Algernon Charles Swinburne e Simeon Solomon, numa compilação e tradução de Helena Barbas. A Irmandade Pré-Rafaelita foi um movimento fundado em 1848 por artistas descontentes com a estética académica e o mundo ainda romântico do seu tempo. A denominação reforçava o facto de se inspirarem na arte anterior ao mestre italiano da pintura Rafael (1483-1520).

Jim Jarmusch

Rodrigo Areias: "Durante o confinamento, voltei a rever toda a obra de Jim Jarmusch, e se o último filme que me toca pessoalmente é 'Só os Amantes Sobrevivem', foi 'Ghost Dog' o filme que marcou mais os meus filhos de 9 e 11 anos. É um belo filme que sintetiza a obra de Jarmusch, obra essa que, como qualquer outra, tem obras maiores e menores."

Onde: "Ghost Dog - O Método do Samurai", de 1999, está disponível em DVD. Forest Whitaker é Ghost Dog, um assassino contratado que vive de acordo com as regras do antigo Método Hagakure. Quando a máfia americana tenta matá-lo para evitar ser envolvida num crime, ele vira a mesa do avesso e decide acabar com todos os mafiosos, um a um. Um dos grandes cineastas do cinema independente americano desde a década de 1980, entre os trabalhos de Jim Jarmusch estão "Para Além do Paraíso" (1984), "Vencidos pela Lei" (1986), "O Comboio Mistério" (1989), "Homem Morto" (1995), "Café e Cigarros" (2003), "Broken Flowers - Flores Partidas" (2005), "Só os Amantes Sobrevivem" (2013) e "Paterson" (2016).

Hashish

Rodrigo Areias: "Sempre que qualquer membro dos extintos Sonic Youth editam um álbum, fico extremamente curioso para ouvir. Acompanho os álbuns a solo do Thurston Moore desde o início, e se 'Psychic Hearts' é um grande disco, e a celebração de Boris Vian [cantautor francês] um disco divertido, neste novo trabalho as guitarras dissonantes voltam ao ataque."

Onde: "Hashish" está disponível no Spotify e na Google Play Music. O single faz parte do álbum "By The Fire", previsto para 25 de setembro, que Thurston Moore diz que recolhe canções de amor "numa altura em que a criatividade é a nossa dignidade, a nossa demonstração contra forças de opressão". Com 61 anos, o guitarrista norte-americano foi um dos fundadores dos Sonic Youth, banda que terminou em 2011, tendo editado também alguns álbuns a solo. Fundou os Chelsea Light Moving e tem-se dedicado a colaborações paralelas, sobretudo em torno da improvisação e do rock, como as que aconteceram em Portugal, com a Galeria Zé dos Bois (ZDB), que o trouxe regularmente ao nosso país entre 2012 e 2014.

Raul Brandão

Rodrigo Areias: "A obra de Raul Brandão está a ser reeditada em edições de grande nível pela editora Opera Omnia. Reli com grande entusiasmo 'Os Pobres' e 'O Padre' desta edição e já tenho agora o 'Húmus' para reler. O prazer da releitura é muito curioso, principalmente quando as edições nos ajudam nesse processo, e estas novas valem mesmo a pena."

Onde: As obras da editora vimaranense estão disponíveis nas livrarias e podem ser encomendadas online. Destacando-se a atenção aos mais desfavorecidos da sociedade, Raul Brandão (1867-1930) deixou uma vasta obra literária e jornalística marcada pelo lirismo e a condição humana que o colocou, a par de Fernando Pessoa, como um dos mais influentes escritores portugueses do século XX.

O Bom, o Mau e o Vilão

Rodrigo Areias: “Não sei quantas vezes vi este filme. Mas em homenagem a Ennio Morricone, um compositor fundamental da história do cinema, acho que se deve sempre rever mais uma. Este é um filme incrível do ponto de vista visual e do ritmo narrativo, mas o uso do som e da música em particular, torna-o incontornável."

Onde: Disponível em DVD. "O Bom, o Mão e o Vilão" (1966) foi o último da "Trilogia dos Dólares", após "Por Um Punhado de Dólares" (1964) e "Por Mais Alguns Dólares" (1965), que fizeram de Clint Eastwood uma estrela e com que o cineasta Sergio Leone (1929-1989) elevou a arte o "western spaghetti". Incontornável foi o terceiro elemento, "Il Maestro" Ennio Morricone, falecido a 6 de julho, cuja combinação de imagem com melodia revolucionou as bandas sonoras, nomeadamente o assobio de "O Bom, o Mau e o Vilão". De uma forma inovadora, a música foi escrita antes da rodagem, o que levou o cineasta a reescrever várias cenas.

Cinema Nimas e Luis Buñuel

Rodrigo Areias: “Na era do desconfinamento é fundamental que o público retome ao cinema. Apesar de ainda não existirem grande número de estreias marcadas, o Cinema Nimas tem conseguido garantir uma série de reposições de filmes como o ciclo Roman Porno ou a continuação do ciclo dedicado à obra de Luis Buñuel, que é sempre mágico rever na sala do cinema. Recomendo a que vão todos ao cinema.”

Onde: A 10 de junho, o Espaço Nimas foi um dos primeiros cinemas a reabrir em Portugal após o fecho forçado a meio de março pela COVID-19, com a programação de cópias restauradas de filmes de Stanley Kubrick, Roman Polanski, Alain Tanner e Nanni Moretti, ciclos dedicados a Luis Buñuel e ao "Roman Porno" (a pornografia japonesa lançada pelo estúdio Nikkatsu nos anos 1970 e as homenagens de realizadores contemporâneos em 2016) e o regresso de filmes que estavam em exibição antes da pandemia (como "Mosquito", de João Nuno Pinto).

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