Como uma espécie de consultório de psicanálise, "The Place" é o lugar dos pecados inconfessáveis. Em vez de um divã, no entanto, a "vítima" lida com a face inexpressiva e cansada de Valério Mastrandea – a viver uma personagem com um pé no fantástico, dada a sua natureza indeterminada. Será Deus? "Como eu sei que você não é o diabo?", pergunta alguém. Resposta: "Não sabe".

Essencialmente, o que ele faz todos os dias, sempre numa mesa de café, é trocar favores. Com ele está um gigantesco livro de anotações: conforme a dimensão do pedido é determinado o valor da exigência. Quanto maior o desejo, mais terrífico é o que pedinte terá de fazer – mais longe terá que ir… Estas almas penadas, obviamente bem representativas da humanidade em geral, sucedem-se umas às outras no café, esperançosas, desesperadas, repugnadas com elas próprias ou com o "proponente".

Uma destas pessoas é uma simpática velhota que terá de explodir uma bomba para fazer regredir o Alzheimer do marido. É dela o diálogo que resume o tema de "The Place": "Existe algo de horrível em todos nós e aqueles que não são forçados a encará-lo têm muita sorte. Estou velha, quase consegui evitá-lo, mas o meu demónio apareceu mesmo no final…".

Há necessidades mais simples: um homem que quer apenas passar a noite com a modelo emoldurada nas paredes da sua oficina. Há outras gigantescos, como a freira que quer voltar a "sentir a presença de Deus", um homem que quer salvar o filho de uma doença grave ou um cego que quer ver. Para estes, não há clemência: o preço a pagar é inacreditavelmente alto. Sem apelo.

Os velhos pactos faustianos ganham uma dimensão mundana e, como tal, mais aterradora: não se tratam de propostas etéreas, como vender a alma por conhecimento e pagar num lugar vago como o Inferno. Em "The Place", "aqui se faz, aqui se paga". Ou melhor: aqui se deseja, aqui se paga…

E como se sentiria essa espécie de Deus a testemunhar, todos os dias, as iniquidades humanas?

Segundo o filme, cansado, muito cansado. Num dado momento, a empregada de balcão aparentemente inocente (Sabrina Ferilli, de "A Grande Beleza") propõe-lhe um "jogo do sério". O resultado lembra a famosa frase de Nietzsche: "se olhar para dentro do abismo, o abismo olhará dentro de você". Ela foge.

O personagem de Mastrandea é menos um ser "nobre" ou "sábio" que "dá conselhos", mas antes funciona como um espelho que aniquila com quaisquer disfarces, ao devolver de forma impassível e desinteressada o arremesso do pedinte.

Quando acusado por um homem de que fez "aquilo que ele pediu", a resposta é: "você não fez por mim, fez por você". E quando a velhota, novamente, o acusa de ser um "monstro", a resposta é: "não sou eu o monstro. No máximo, alimento-os". Por outras palavras, o monstro é você.

Fica para a Sessão de Encerramento um dos grandes momentos da Festa do Cinema Italiano. Com esta espécie de "fábula", Paolo Genovese, um dos argumentistas mais geniais do cinema do país (aqui em parceria com Isabella Aguilar), propõe uma reflexão emocional e tão envolvente quanto possível para uma proposta cinematográfica acessível a todos. Não se pode pedir mais.

"The Place" será exibido na 11ª Festa do Cinema Italiano a 12 de abril às 21h30 no Cinema S. Jorge.

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