Marcel Marx (André Wilms), que trocou a existência boémia pela paz familiar, dedica toda a sua energia à missão de fazer com que Idrissa (Blondin Miguel), criança emigrante que vai parar a França por azar, chegue a Londres para se reencontrar com a sua família. O enredo podia situar-se em qualquer década europeia, mas é de 2011 este filme francês/finlandês de Aki Kaurismäki, premiado em Cannes: “Le Havre”.

Marcel está sentado no porto de “Le Havre” e prepara-se para almoçar a sua baguete – cenário que, dificilmente, seria mais francês. Escondido atrás de um pilar está Idrissa, que fugiu das autoridades depois de o contentor onde viajou ter ido parar a França. O destino era Londres. Garantir que Idrissa chega à capital britânica torna-se missão absoluta de Marcel. Sabemos que o homem dedica todas as suas energias a esse objetivo.

Ele viaja até ao centro de refugiados em Calais, onde localiza o avô de Idrissa. Gasta todas as suas poupanças para pagar o transporte do rapaz até Londres, poupanças que a sua mulher, Arletty (Kati Outinen), guarda religiosamente numa caixa metálica, na pobre casa dos dois. A casa é pobre, sim, mas, tal como Marcel ultrapassa todos os obstáculos daquela missão sem gota de suor, também a vida humilde parece assentar-lhe sem sobressaltos. O dinheiro que ganha como engraxador não é muito, mas permite um copo ou dois de vinho no bar ao pé de casa, acompanhados de vários cigarros. Francês, muito francês.

Le Havre

Marcel dedica-se inteiramente à tal missão de enviar Idrissa para Londres, mas não revela qualquer sinal de esforço. É como se fizesse tudo com tal gosto que não custa nada. Com uma entrega estóica e uma sensibilidade francesa, consegue até suportar o facto de Arletty passar estar hospitalizada durante quase todo o filme, sem saber bem se a doença da mulher é grave ou não. E, no final de “Le Havre”, o realizador deixa-nos a desejar intensamente que Marcel não encontre a cama do hospital vazia, depois da boa ação cumprida. Kaurismäki engana-nos por momentos, mas o casal regressa pacificamente à casa no bairro proletário onde vive, acabando a admirar a cerejeira em flor do seu jardim.

As imagens bucólicas e nostálgicas abundam em “Le Havre”. Pensamos que o filme é mais antigo, até porque as suas cores desmaiadas permitem essa leitura, mas o tema encaixa perfeitamente na atualidade.

O que não bate com a história é a permissividade do inspetor Monet, que fecha os olhos à transgressão de Marcel várias vezes para impedir que Idrissa seja capturado pelos seus colegas. Monet parece ser um inspetor bonzinho e esse papel assenta-lhe, até que achamos que já é demais. Há ainda uma última oportunidade de Monet revelar a sua natureza maléfica mas o inspetor finge não ver Idrissa escondido no porão do barco onde foge.

Os habitantes desta Le Havre são personagens boas, com razões para duvidar da vida, mas que aceitam com serenidade e alegria o destino que lhes estava reservador. A própria edição do filme adota um ritmo tranquilo, excluindo inquietações e sobressaltos. Na Le Havre de Kaurismäki, há espaço para os planos bucólicos, para os vestidos vintage muito amarelos e para a cerejeira em flor com que o filme nos deixa, sossegados. Desde que haja um cálice de vinho, tudo está bem.

É um feel good movie e não pretende ser mais do que isso. Mas consegue mais do que isso. Kaurismäki devolve a esperança à humanidade.

Veja mais no blog de Filipa Moreno

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