Kevin Hart colocou um ponto final ao seu envolvimento com os Óscares, dizendo esta quarta-feira no programa "Good Morning America" que não vai ser o anfitrião da cerimónia.

"Não, não vou ser o anfitrião dos Óscares este ano", foi a resposta sem hesitações à pergunta do apresentador Michael Strahan sobre se havia qualquer esperança de ficar no cago.

"A Academia, são pessoas espantosas, a proposta foi feita, foi recebida, fiquei animado que isto tenha acontecido, não resultou da forma que devia. De uma perspetiva de tempo neste momento, realmente não tenho tempo", acrescentou, referindo-se à cerimónia marcada já para 24 de fevereiro.

Momentos antes, o ator e comediante tinha afirmado que não tinha a intenção de "dar mais explicações sobre quem sou" nem regressar ao tema da controvérsia sobre as piadas e mensagens antigas homofóbicas que o levaram a desistir dos Óscares a 7 de dezembro.

"Não tem fim. Irá crescer se continuamos a dar energia a isto. Não vão receber mais energia da minha parte. Não vou dar mais porque não tem fim. Quero que toda a gente saiba que para mim acabou. É uma escolha que fiz pessoalmente de dizer que não não voltar a comentar", explicou.

"Para mim acabou", disse várias vezes durante a entrevista, acrescentanto que já tinha pedido desculpa mais do que uma vez.

"Se não a ouviram, não sei do que estão à procura. Sou uma boa pessoa, gosto de gostar, se não o conseguem ver então o problema é vosso", reforçou.

Uma história rocambolesca

A 7 de de dezembro, menos de 48 horas após ser anunciado como anfitrião dos Óscares, que descreveu como a concretização de um dos seus grandes sonhos, Kevin Hart preferiu desistir a pedir desculpa pelos comentários polémicos.

Segundo fontes dentro da indústria, a partir daí os produtores da cerimónia encontraram dificuldades em encontrar um substituto.

Por sua vez, a própria a Academia nunca abordou a polémica ou a desistência em comunicado ou nas redes sociais.

A presença de um Kevin Hart menos desafiador e mais arrependido no programa de Ellen DeGeneres, gravado na quinta-feira, parecia indicar que podia voltar atrás na decisão.

Durante a entrevista, o ator e comediante voltou a dizer que os comentários antigos eram piadas de "comediante imaturo" estúpidas e erradas, pelo que já as tinha abandonado.

Acreditando em "perdão" e "segundas oportunidades", Ellen DeGeneres, que esteve duas vezes à frente da cerimónia, mostrou então o seu apoio e revelou que tinha contactado a Academia e esta mostrara grande disponibilidade para ele voltar ao cargo.

A seguir ao intervalo, a apresentadora anunciou que estava de volta com "o anfitrião dos Óscares deste ano", a quem disse que devia ignorar os ataques "online", descrevendo-os como sendo de "um pequeno grupo de pessoas que são muito, muito barulhentas. Nós somos um grande grupo de pessoas que gostamos de ti e queremos que sejas o anfitrião dos Óscares".

DeGeneres, que assumiu ser lésbica em 1997, reforçou que não devia deixar ganhar os que o arrasaram e que a Academia tem secretamente a esperança que regresse e por isso não tinha encontrado outro anfitrião.

Kevin Hart acabou por abrir a porta para algo que vários analistas acreditam que já estava decidido nos bastidores: "Ao sair daqui, prometo-te que vou ponderar esta conversa. Deixa-me avaliar, sentar-me e pensar a sério, e tu e eu iremos falar antes de tudo o resto."

Ellen DeGeneres não escapou a críticas pelo apoio

Momentos após excertos da entrevista terem sido divulgados,  Ellen DeGeneres não escapou às críticas por usar o seu programa e estatuto para defender Kevin Hart.

As primeiras reações surgiram nas redes sociais, mas nas horas seguintes foram publicados vários artigos de opinião negativos nos influentes Variety, The Hollywood Reporter e Entertainment Weekly.

Um colunista convidado pelo Washington Post (disponível na Europa através do Denver Post) foi arrasador num artigo significativamente intitulado "Quem morreu e fez da Ellen o papa dos gays?" e teve muita repercussão a reação do jornalista da CNN Don Lemon.

Várias pessoas acharam que a apresentadora, assumidamente lésbica, optou por passar ao lado dos comentários que originaram a controvérsia e defender a autenticidade da entrevista para reforçar o apoio nas redes sociais, dizendo que acreditava em "perdão" e "segundas oportunidades".

"Acho adorável que a Ellen tenha decidido por toda a comunidade LGBT que na verdade aceitamos bem o que o Kevin Hart disse porque ela o conhece pessoalmente e ele é simpático", ironizou um internauta.

Houve quem defendesse ainda que Ellen se aproveitou do programa e do estatuto na comunidade para desvalorizar a situação e as pessoas que criticaram os comentários.

"Ellen, isto é tão desencorajador. Tanto como antigo convidado no seu programa e homossexual negro, reduzir os críticos do Kevin a meros 'pessoas que odeiam' é desdenhoso e prejudicial".

"Essencialmente, o programa da Ellen é a personificação das políticas de respeitabilidade, pelo que usá-lo como uma plataforma para absolver Kevin Hart em nosso nome está de acordo com a marca. A sua série de comédia ["Ellen", transmitida entre 1994 e 1998, onde assumiu a homossexualidade] permitiu-lhe fazer algo radical, pelo qual ela foi prejudicada, e desde então tem fugido disso".

"A Ellen dando a homofóbicos a oportunidade de dizer 'mas a Ellen disse que está bem' é uma gigantesca traição. Não quero saber quantas séries de comédia perdeste nos anos 90".

"As pessoas que destacaram os comentários antigos do Kevin Hart — como eu — não são, como a Ellen as descreveu, 'pessoas que odeiam'. O anfitrião dos Óscares tinha feito comentários anti-gay e a comunidade LGBT que adora os Óscares estava legitimamente assustada por ver como as suas palavras eram chocantes. Não era uma canalha a querer tramar o Kevin Hart. Era um grupo de pessoas que queriam perceber o pensamento dele sobre estas mensagens dolorosas e as suas piadas nos espetáculos de comédia".

O tom e explicações de Kevin Hart também mereceram críticas.

"Eu também acredito em perdoar. Mas também que perdoar precisa de um pedido de desculpas a sério. Não um 'peço desculpa pelas pessoas serem tão sensíveis'. Apenas 'peço desculpa'. Era tudo o que tinha de fazer. E ele recusou indignado porque sentiu que o seu momento estava a ser estragado. Que era ele o prejudicado".

"A tese do Kevin Hart neste entrevista com a Ellen é ‘as pessoas arruinaram a minha diversão e fiquei zangado porque as pessoas arruinaram a minha diversão e podia ter-me portado melhor, mas as pessoas estragaram A MINHA DIVERSÃO num dia que deveria ser só sobre mim. E esta é a versão do Kevin Hart com MATURIDADE".

“Quando já não se é homofóbico, acho que não se devia importar de pedir desculpa pela sua antiga homofobia de novo e de novo e de novo. Não quero ouvir recontar de forma hostil como nós não percebemos o teu escasso pedido de desculpas da primeira vez".

"A única coisa que o Kevin Hart demonstrou indo ao programa é que é um péssimo ator sem qualquer remorso genuíno que não teve a decência de abordar a sua ignorância. Não, não eram 'pessoas que odeiam' que te andaram a perseguir. Era a comunidade LGBTQI+ porque estamos mais do que cansados disso".

"Esta coisa toda da Ellen/Kevin Hart é um exemplo perfeito de como os privilégios e os elogios constantes distorcem tanto a noção de realidade de uma pessoa que acham que qualquer crítica, ainda que válida, é um ataque a toda a sua subsistência".

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