Nascida em Pequim, mas fascinada pelo Oeste americano, a realizadora de "Nomadland - Sobreviver na América", Chloé Zhao, tem Hollywood aos seus pés com as várias nomeações para prémios e um filme de super-herói da Marvel a caminho.

A cineasta de 38 anos foi nomeada para quatro Óscares da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas esta segunda-feira (15), incluindo os de Melhor Realização e Melhor Filme pelo seu trabalho intimista sobre americanos em dificuldade que viajam pelo país em busca de empregos temporários.

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Zhao é a primeira mulher a receber quatro nomeações um ano na história quase centenária das estatuetas douradas e a primeira mulher asiática na corrida dos realizadores, apenas duas semanas depois de ganhar um histórico Globo de Ouro.

"Muito obrigado aos meus colegas membros da Academia por reconhecer este filme que é muito próximo do meu coração", comemorou a realizadora num comunicado à imprensa dos EUA.

Ambientado nas paisagens espetaculares de estados desconhecidos e escassamente povoados, como Dakota do Sul e Nebraska, "Nomadland" é a mais recente carta de amor da artista chinesa aos vastos espaços da sua pátria adotiva.

Em 2015, com o seu primeiro filme, "Songs My Brothers Taught Me" (nunca estreado nas salas portuguesas), sobre uma adolescente que sonha com uma vida além da reserva indígena de Pine Ridge, Zhao mergulhou durante meses na vida dos nativos do Dakota do Sul.

Zhao descobriu fotos da terra dos Lakota Sioux enquanto estudava cinema em Nova Iorque. Concebeu então o projeto "para contar uma história que pudesse tornar as coisas melhores" para eles, explicou a realizadora numa entrevista recente à New York Magazine.

O filme ganhou prémios em festivais, mas Zhao ganhou mais destaque dois anos depois com "The Rider" (também inédito por cá), outro quase-western filmado em Pine Ridge e no vizinho Parque Nacional de Badlands, ao qual voltaria novamente em "Nomadland".

Outro tema comum nos filmes de Zhao é trabalhar com atores amadores que interpretam versões semificcionais de si mesmos.

“Não sou o tipo de argumentista e realizadora que consegue criar as suas personagens sozinha em uma sala”, explicou à New York Magazine.

Para "Nomadland", a cineasta trabalhou com a reputada atriz Frances McDormand, a quem Zhao inspirou para fazer a sua própria jornada pessoal para interpretar a sua personagem nómada, Fern.

Após a vitória nos Globos de Ouro, Zhao comemorou o reconhecimento que isso traz para a comunidade nómada.

"Se isso significa que mais pessoas verão alguém que não mora numa casa tradicional, que vive um estilo de vida alternativo, e a cumprimentem, digam olá, isso fará o dia deles", afirmou Zhao à agência France Press (AFP).

"Forte concorrente"

Frances McDormand com Chloé Zhao.

Nascida Zhao Ting, filha de um rico executivo de uma siderúrgica chinesa, a cineasta deixou a China ainda adolescente para estudar num colégio interno britânico antes de terminar os seus estudos em Los Angeles e Nova Iorque, onde teve Spike Lee como professor.

O sucesso de Zhao foi inicialmente celebrado no seu país natal, onde a comunicação social estatal a apelidou de "o orgulho da China". No entanto, depressa apareceu uma entrevista de 2013 na qual a realizadora alegamente chamou a China de "um lugar onde há mentiras por toda parte", o que a tornou alvo de críticas.

Alguns nacionalistas chamaram-na de "traidora", uma polémica que pode prejudicar a estreia de "Nomadland" na China.

Embora o filme em si não tenha um tom político, ele aponta para as crueldades do capitalismo, que não fornece nenhuma rede de segurança para os americanos mais velhos.

Zhao mora em Ojai, uma pequena cidade rural da Califórnia a cerca de 150 quilómetros a noroeste de Los Angeles, fortemente imersa na cultura hippie. Lá, mora com o namorado, um operador de câmara britânico, e dois cães.

Enquanto "Nomadland" é distribuído pela Searchlight, que pertence à Disney, o próximo filme de Zhao está associado a "blockbusters" dos grandes estúdios de Hollywood: ela já terminou a rodagem de "Eternals", um filme de super-heróis da Marvel, protagonizado por estrelas como Angelina Jolie e Salma Hayek.

Em fevereiro, também foi anunciado que Zhao dirigirá uma versão de "Drácula" em estilo western de ficção científica futurista para a Universal.

Resta saber como Zhao lidará com a passagem de autora independente a superestrela da Meca do cinema, mas por enquanto o foco está em "Nomadland" e o seu desempenho nos Óscares.

"Acho que é justo dizer que ela acaba de ter um ano incrível. Ela é definitivamente uma forte concorrente", confirmou um membro da Academia à AFP.

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