O calendário tem dias de tudo e mais alguma coisa, mas este ano há boas razões para se celebrar o Dia Mundial do Cinema. Por um lado, esta arte fantástica está mais receosa do que nunca na sua forma clássica de contar histórias, por outro lado há uma efeméride redondinha: este ano celebram-se os 125 anos da primeira sessão pública de cinema, a curiosa – talvez estranha na altura - sessão do cinematógrafo dos Lumière. Foi esta a primeira vez que espectadores pagaram um bilhete para ver o futuro.

Quanto mais distantes no tempo são os eventos históricos, mais permissivos são para uma certa romantização do acontecimento. Não se pode referir com certeza absoluta que foram realmente os irmãos Lumière os inventores do cinema. Não podemos sequer dar uma data precisa e o nome isolado de quem inventou as maquinetas que o tornaram possível.

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Os irmãos de Lyon foram os primeiros a mostrar uma solução eficaz de captura e projeção de imagens. A equipa de inventores de Edison já antes tinha forma de captar imagens e mostrar essas fotografias animadas. Mas não tinham a magia do espetáculo de projeção pública. Cada espectador tinha a experiência isolado dos restantes, através de um caixote ligado à novidade da corrente elétrica. Anos antes outros tentaram fazer o mesmo. O nome “Cinematógrafo”, tinha já sido registado por um outro inventor francês, León Bouly, que anos antes desenvolveu experiências de captação de imagem com um aparelho de que registou a patente e o nome: “Cinematograph”. Por dificuldades de manter o pagamento dessa patente e garantir investidores para desenvolver comercialmente o projeto, acabou por falir e vender o nome aos Lumière.

Essa vontade de captar e dar ilusão de movimento já era antiga. Vários aparelhos com desenhos foram muito populares nessa função de enganar o olhar, mas tudo mudou em 1823 com a invenção do francês Joseph Nicéphore Niépce, a fotografia.

A ideia de experimentar a captação fotográfica para criar uma ilusão de movimento terá nascido de uma aposta de 25 mil dólares em 1872. O californiano Leland Stanford, político e magnata dos caminhos de ferro americanos, tinha apostado com um amigo, durante uma corrida de cavalos, que o animal a galope chegava a tirar as quatro patas do chão, ficando suspenso no ar. Ora, com a rapidez com que o cavalo corria, o facto não era percetível ao olhar e não havia forma de decidir quem ganhava a aposta dos dois teimosos. Foi por isso que foi contratado Eadweard Muybridge, um fotógrafo e artista ambulante de São Francisco. Hoje parece-nos um desafio simples, um telemóvel básico faz essa captura de movimento, mas, na altura, o fotógrafo teve que puxar pela cabeça para responder ao desafio.

Cinema

Muybridge alinhou 24 máquinas fotográficas e outros tantos fios que, ao serem cortados à passagem do cavalo a galope, faziam disparar cada um dos aparelhos em sequência e de forma muito rápida. O fotógrafo lá conseguiu provar que, na verdade, um cavalo a correr tem um momento em que fica suspenso no ar.

Muybridge percorreu o país, exibindo os seus estudos fotográficos em movimento. Os espectadores chamavam-lhe “a lanterna- mágica que endoideceu”. O facto de muitas das imagens que ele mostrava nesse teste de movimento serem de modelos nus, incluindo do próprio fotógrafo, resultavam num curioso atrativo adicional, para levar público às exposições.

Chegou-se ao final do século XIX sabendo-se que a vida real poderia ser captada em fragmentos fotográficos que, mostrados a uma certa velocidade, criavam uma ilusão ao olhar.

Em 1888, numa dessas digressões pelo país para mostrar as suas fotos animadas, o empreendedor fotógrafo montou o seu espetáculo ambulante em West Orange, na Nova Jérsia, onde conheceu a figura mais popular da terra e que era já na altura uma lenda americana: Thomas Alva Edison. Em 1877, aos 30 anos, ele tinha espantado o mundo com o fonógrafo. Dois anos depois, apresentou um sistema de iluminação elétrica que dava luz a cidades inteiras.

Quando Muybridge conheceu Edison, o fotógrafo inquietou-o com outra ideia brilhante: então e se juntasse o som do fonógrafo às imagens em movimento? O inventor ficou intrigado e, como empreendedor que era, a 8 de outubro de 1888, anunciou planos para “criar um instrumento que faria para os olhos o que o fonógrafo fazia para os ouvidos”. Não fazia ideia de como concretizar este feito, atribuiu a tarefa ao seu colaborador William Kennedy Dickson, um irlandês engenhocas que, por vezes, funcionava como fotógrafo do laboratório.

Como nos filmes, há sempre uma história intrigante. Desde os primórdios do cinema que há um enigma que persiste, um caso de polícia que poderia ter antecipado uns anos o início do cinema. Há mesmo historiadores que entendem que o verdadeiro inventor desta arte não foram nem Edison nem os irmãos Lumière, mas um outro francês, Louis Aimé Augustin Le Prince.

Já quase no final do século XX, foram encontrados dois fragmentos de imagens que Le Prince terá captado em 1888, dois pedaços de filme que ele registou. Porque será, então, que se fala tão pouco de Le Prince como pioneiro do cinema, anos antes dos irmãos Lumière?

Ele terá demorado dois anos a desenvolver e a aperfeiçoar o seu processo de filmagem e projeção, já usava perfurações na fita que facilitavam a estabilização da imagem. Em 1890, com todas as experiências já feitas e testadas, entrou no comboio em Dijon com a intenção de ir a Paris divulgar a sua invenção. Marcou uma reunião com o secretário da Ópera de Paris para lhe mostrar a invenção e tentar marcar uns espetáculos de demonstração da novidade. Algo de estranho se passou porque, durante a viagem, Le Prince desapareceu sem deixar rasto.

Os registos policiais da época referem que o inventor desapareceu a 16 de setembro de 1890, na viagem de comboio entre Dijon e Paris. Nem Le Prince nem o seu precioso invento chegaram ao destino, tudo desapareceu misteriosamente, precisamente quatro anos antes dos dois irmãos de Lyon anunciarem discretamente o que tinham para mostrar.

Numa altura em que o cinema já não tem limites para a imaginação, quando atravessa uma fase tão desafiante, só comparável à época em que deixou de ser mudo para ter som a acompanhar as histórias, muitas das aventuras dos pioneiros entusiasmados, perderam-se na memória, mas são esses engenhocas e alquimistas da inovação que no dia do cinema devem ser celebrados.

Não deixa de ser interessante refletir sobre como reagiriam Edison ou Méliès a uma sessão IMAX de “Star Wars”, ou qual será a cara de espanto dos Lumière a ver o que faz agora um Smartphone. Tanto antes como agora, o que conta são as histórias e a arte de nos fazer tocar com magia.

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