No cinema português a Competição Nacional continua com "Mariphasa", de Sandro Aguilar, estreado no Festival de Berlim, enquanto "Lupo" recria a trajetória de um dos pioneiros do cinema português. O SAPO Mag destaca duas preciosidades – a antestreia nacional do brasileiro "As Boas Maneiras" e o segundo filme de Lucrecia Martel, uma das homenageadas deste ano, "La Niña Santa - A Rapariga Santa".

Etiqueta para homens primitivos

Filmes como "As Boas Maneiras" demonstram que as possibilidades das fantasias góticas são intermináveis. Marco Dutra e Juliana Rojas já andam há alguns anos a espalhar pelos grandes festivais de cinema mundial as suas histórias. Um deles, "Trabalhar Cansa", já andou por Cannes.

Dividido em duas partes, o seu mais recente trabalho narra a história de duas mulheres solitárias: uma rica (Marjorie Estiano), ainda que em situação financeiramente duvidosa, contrata outra (interpretada pela portuguesa Isabél Zuaa) para ajudá-la a tomar conta do luxuoso apartamento onde vive e, principalmente, do seu filho que está para nascer. No entanto, a sina da “baby sitter” será testemunhar estranhíssimos acontecimentos que vão condicionar a sua vida para sempre – tal como narra a segunda parte do enredo e sobre a qual nada se deve revelar! Aliás, como um filme que vai se descortinando aos poucos, quanto menos se souber, maiores as “alegrias”.

O visual é cortesia do português Rui Poças, também presente no IndieLisboa no ensolarado "Zama", de Lucrecia Martel. A ideia, bem-sucedida, foi recriar uma São Paulo em tons de fábula, onde os arranha-céus e as pequenas vivendas da periferia servem para satisfazer o desejo elementar de toda a história "gótica", entendida aqui no mais vasto significado de uma palavra imprecisa: retirar os personagens da banalidade quotidiana e levar com elas o espectador ao mundo da fantasia.

"As Boas Maneiras" é um filme vigorosamente destemido. Primeiro na questão dos géneros: essencialmente um drama com toques de horror (ou seria o contrário?), tem suspense, humor, animação e, o cúmulo, música. Sobrenatural aqui é como tamanho amontoado de ingredientes não cai no ridículo e, aliás, nem sequer na paródia: leva-se "As Boas Maneiras" a sério até o fim.

Há "gore" em doses suculentas e um monstro. Este último é um capítulo à parte, possibilitado pelo tecnologia mais barata e pelo sentido de credibilidade que os realizadores conseguiram imprimir a todo o filme. De resto, Rojas e Dutra entram imperiais no mundo do abjeto: chocar é bom e faz crescer. Não é para muitos, mas é impressionante.

E há as entrelinhas: "As Boas Maneiras" é um filme sobre dicotomias de um Brasil tão compreensível quanto contraditório. Sob o pano de fundo das questões femininas, são do mesmo sexo (homossexualismo), de diferentes extratos sociais (abuso de uma sobre a outra) e uma ser branca e a outra negra (racismo).

Dutra e Rojas sugerem uma diferença crucial em termos de fantasias góticas. A alteridade não é o Outro, o Estrangeiro: o mal vem de dentro, é uma criatura engendrada no seio da sociedade e, em última análise, no interior de cada um. E para aplacar essa fúria primitiva não há tais remédios como a etiqueta – não há nenhum compêndio de boas maneiras que possa lidar como insublimável.

Nunca fui santa

Lucrecia Martel é uma realizadora de sugestões, de insinuações, de estados mentais e instituições de relações aparentemente fechadas, como a família ou a religião. "La Niña Santa - A Rapariga Santa" é dos seus filmes mais ardilosos, um verdadeira labirinto de ambiguidades.

É o segundo filme da realizadora e desloca-se dos cenários rurais de "O Pântano" e do extrato social da aristocracia rural para os interiores de um hotel num congresso de médicos. Pelo meio há adolescentes em chamas numa fase pouco propícia à santidade, adultos no limite da carência desesperada e uma mar de atitudes pouco recomendáveis.

O filme começa com uma evangelizadora emocionada a cantar música sacra para um grupo de raparigas, entre elas as duas protagonistas, Amália (María Alché) e Josefina (Julieta Zylberberg). Elas não estão assim tão embevecidas e todas as possiblidades de elevação religiosas serão soterradas ao longo do filme mediante enxurradas de descrições sexuais muito pouco subtis. Ainda assim, a primeira embarca numa “missão” quando fica inebriada pelo assédio mais ultrajante de um médico do congresso, o dr. Jano (Carlos Belloso). Este, por seu lado, é o objeto de interesse da sua mãe, Helena (Mercedes Morán), uma mulher divorciada e sensual.

Não há nudez, mas há sexo um pouco por todo o lado, na medida que os elementos habituais da iconografia de Martel vão sugerindo diferentes significados (água, piscina, cabelos) e insinuando-se por mais uma história íntima: cenários fechados, poucos exteriores, muitos "closes" e fora de campo. Com um subenredo explosivo, Martel ainda se delicia a deixar um final potencial e novelescamente dramático para… a imaginação do espectador!

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