A pandemia encurtou para metade a "janela" de exclusividade de cerca de 90 dias de um filme nas salas de cinema. Ou até menos: desilusões de bilheteira como "65", com Adam Sriver, ou "Shazam: Fúria dos Deuses", ou sucessos como "Creed III" ficaram disponíveis nas plataformas 'premium' de 'video-on-demand' nos EUA até 28 dias após a estreia.

À medida que evolui a estratégia de "cinema em casa", o sucesso desses filmes nesta nova fase está a reforçar a posição dos que defendem a vantagem de um primeiro lançamento exclusivo nos cinemas.

Nos primeiros meses de 2023, o mercado de exibição aproxima-se ao que existia antes da pandemia, com as receitas das bilheteiras nos EUA a chegaram aos 2,3 mil milhões de dólares (mais 36,8% em relação ao mesmo período do ano passado e 585,5% quando se olha para 2021) graças a títulos como "Avatar 2", "Creed III", "Gritos 6", "John Wick 4" e, no último fim de semana, "Super Mario".

Em parte, a razão é a estreia de novos filmes de franquias de sucesso, mas a revista Variety também fala de uma mudança de atitude nos grandes conglomerados dos media sobre o valor da estrear os filmes nos cinemas.

A pandemia pode ter reforçado o impacto do streaming e até impulsionou durante algum tempo a estreia em simultâneo nas salas e nas plataformas, mas houve uma mudança de atitude depois de os investidores de Wall Street chamarem a atenção que esses serviços precisam focar-se tanto em tornar-se lucrativos como em conquistar subscritores... em vez de se sustentarem na dívida. E isso "tornou as receitas de bilheteira uma parte cada vez mais vital da sua saúde financeira em geral".

"Os estúdios descobriram a religião. Chegaram à conclusão que ter uma janela exclusiva nos cinemas é a melhor maneira de maximizar os lucros em vez de lançar tudo ao mesmo tempo no video-on-demanad. Há muito valor de marketing em ter o filme nos cinemas", explicou à revista Eric Handler, um analista da Roth Capital Partners.

"Air"

Por agora, a Netflix mantém-se fiel ao seu modelo de estrear quase todos os seus filmes apenas em streaming, reservando um lançamento limitado nos cinemas para os seus filmes à conquista de prémios, mas Amazon e Apple já mudaram as suas estratégias, anunciando investimentos de milhões no lançamento exclusivo de vários títulos no grande ecrã, tanto nos EUA como no mercado internacional.

A primeira já o fez com "Air", de Ben Affleck e com Matt Damon e Viola Davis, a segunda vai fazê-lo por exemplo com "Napoleão", de Ridley Scott e com Joaquin Phoenix, e "Killers of the Flower Moon", de Martin Scorsese e com um elenco de estrelas liderado por Leonardo DiCaprio e Robert De Niro.

No caso de "Air", a estreia de 20 milhões nos EUA foi considerada positiva para um filme destinado a um público mais adulto, um setor do mercado de cinema que mostra problemas de recuperação após a pandemia.

Mas o ganho principal não é o financeiro: o filme chegará ao serviço Amazon Prime Video com muito mais reconhecimento público e cria "fluxos de receita adicionais", como os de "video-on-demand" e outras oportunidades de licenciamento, que não são possíveis quando o lançamento é diretamente em streaming.

"A Amazon está a sofrer um rombo", admitiu à Variety Kevin Wilson, presidente da distribuição da MGM e da Amazon Studios, "mas acho que não se pode substituir o que 'Air' conseguiu este fim de semana em termos de publicidade, reconhecimento público e o marketing de ser lançado nos cinemas".

"Nem todos os filmes precisam de um lançamento nos cinemas, mas alguns pertencem aos cinemas. A indústria precisa de mais produto para continuar a ser saudável. A Amazon pode fazer parte disso. Isto é realmente uma coisa positiva para a Amazon e para a indústria", acrescentou.

Como explicou à revista David A. Gross, que está à frente da consultora Franchise Entertainment Research, "'Air' é um exemplo da força única da distribuição de cinema e não apenas nas bilheteiras. Este filme terá maior impacto e venderá mais subscrições quando chegar ao streaming do que se fosse lançado exclusivamente na sua própria plataforma".

A Variety diz que os responsáveis dos estúdios de Hollywood se queixam há muito tempo em privado dos exibidores de cinema "atirarem os filmes para os seus ecrãs" sem "prestarem atenção às subtilezas do atendimento ao cliente". Ou seja, tornar mais atrativa a experiência de ir ver um filme no cinema.

Mas também perceberam que as pessoas não vão assinar todas as plataformas de streaming e que se querem que os seus filmes sejam vistos, precisam de um modelo diferente.

"Existe um número limitado de pessoas que vão subscrever o teu serviço de streaming, portanto se queres chamar a atenção para os teus filmes, o cinema torna-se uma opção muito mais eficiente”, resumiu Eric Wold, analista da B. Riley Securities.