O produtor português Paulo Branco continua a assegurar os destinos da carreira de realizadora da incontornável atriz francesa Fanny Ardant: após produzir o seu primeiro filme, «Cinzas e Sangue», em 2009, vai ser também o responsável pela sua segunda fita atrás das câmaras, «Cadências Obstinadas», apresentada hoje à imprensa em Lisboa e cuja filmagem arrancou há dois na capital e se prolonga por seis semanas.

O elenco é internacional e conta com estrelas como o francês Gérard Depardieu, o italiano Franco Nero (que encarnou o Django original e volta agora a reaparecer em «Django Libertado», de Quentin Tarantino), a italiana Asia Argento, o belga Johan Leysen, e os portugueses Nuno Lopes, Ricardo Pereira, Laura Soveral e André Gomes.

A história decorre em redor da recuperação de um velho hotel em ruínas, com as histórias cruzadas das várias personagens de diversas origens. Apesar da rodagem ser em Lisboa, a ação localiza-se numa cidade indeterminada, com Ardant a sublinhar que «não vou filmar com um ponto de vista turístico. Se o filme fosse rodado em Paris, eu não mostraria a Torre Eiffel». As personagens, contudo, terão o francês como língua comum em que todas se entendem, embora os atores nacionais possam depois falar entre si em português ou com Franco Nero em italiano.

Apesar disso, Ardant revela uma grande paixão por Lisboa, e, parafraseando o célebre manifesto de Rosa Luxemburgo de que «a terra pertence a quem a trabalha», afirmou entusiasmada que «Lisbon belongs to me».

Nuno Lopes e Ricardo Pereira revelaram o privilégio que é trabalhar com uma figura icónica como Ardant, mas Asia Argento foi mais longe: «Já não há pessoas como a Fanny. Eu apaixonei-me pela história, pelas personagens e, mais importante, por ela. Fazer este filme foi uma grande oportunidade para mim. Nos último anos, depois do nascimento do meu filho, só tenho feito filmes pelos quais não sinto qualquer paixão. Este é o primeiro pelo qual me apaixono há vários anos».

«Cadências Obstinadas» vai ter o financiamento repartido entre França e Portugal, com a fatia maior a vir do hexágono, embora tudo por via de Paulo Branco. «É uma produção de Branco & Branco», ironizou o produtor, que sublinhou a qualidade de nível mundial da equipa da rodagem, que inclui André Szankowski, o diretor de fotografia que reuniu todos os elogios em «Mistérios de Lisboa».

Sobre a atual situação de escassez de financiamento público à cultura, que Nuno Lopes também referenciou ao afirmar que «não conhece outros atores atualmente a trabalhar em cinema em Portugal», Branco não deixou de dizer que também «não se pode estar só à espera que seja o ICA [Instituto do Cinema e Audiovisual] a resolver as situações todas. As autarquias têm uma enorme responsabilidade, as televisões têm uma enorme responsabilidade e as grandes empresas deveriam ter uma enorme responsabilidade no desenvolvimento do cinema português».

«Cadências Obstinadas» deverá estrear no outono de 2013.