Estreia esta quinta-feira em Portugal "Silêncio", o olhar fervoroso com que Martin Scorsese pretende "abrir um diálogo" com o espectador e mostrar "até que ponto a espiritualidade é parte integrante do ser humano".

O famoso realizador, que se define como um católico não praticante, alimentou durante mais de 25 anos o sonho de levar ao cinema o romance de Shusaku Endo publicado em 1966 que já inspirou dois filmes, "Chinmoku / Silêncio" (1971), de Masahiro Shinoda, e "Os Olhos da Ásia" (1996), de João Mário Grilo.

A história acompanha Sebastião Rodrigues e Francisco Garupe, dois jesuítas portugueses no século XVII, que foram ao Japão em busca do seu mentor, Cristóvão Ferreira, que terá renunciado a Deus.

Durante a sua missão perto de Nagasaki sob o xogunato de Tokugawa Ieyasu, que baniu o catolicismo e quase todo o contacto com os estrangeiros, não só testemunham o que acontece aos japoneses convertidos, os "kakure kirishitan" [cristãos escondidos], como acabam por também ser perseguidos.

Rodado em Taiwan, Scorsese fez e desfez "Silêncio", mudando, inclusive, o elenco, porque os atores "iam envelhecendo", admitindo que, "de alguma forma, este é o filme que mais se entrelaçou com a minha vida pessoal".

Nos corpos e rostos do inglês Andrew Garfield e do norte-americano Adam Driver, ambos com 33 anos, vemos como os dois padres começam a lidar com a sua própria fragilidade humana, as suas certezas e dúvidas (por que razão Deus nada diz aos que sofrem? É porque não existe? Ou está a sofrer entre eles?) e através disso chegarem a uma compreensão mais profunda do amor de Deus e do significado do seu silêncio.

O irlandês Liam Neeson surge no papel de Cristóvão Ferreira, a personagem que se aproxima mais da realidade: nasceu em 1580 em Torres Vedras e morreu em 1650 em Nagasaki.

Já Sebastião Rodrigues inspira-se no italiano Giuseppe Chiara, que viveu entre 1602 e 1685, enquanto que, para a personagem de Francisco Garupe, Shusaku Endo provavelmente juntou Alfonso Arroyo, Francisco Cassola e Pedro Marquez. os outros jesuítas de um grupo de 10 que chegou ao Japão em 1643.

Ficcional é também a personagem de pouco confiável Kichijiro (Yōsuke Kubozuka), o pescador que conduz os dois jesuítas para o Japão e cuja jornada ao longo de "Silêncio", sistematicamente a pedir a Rodrigues para ser ouvido em confissão e perdoado, é quase tão complexa como a deles, mas bem real é o terrível "inquisidor" Inoue Masashige (1585-1661), interpretado, no que é uma gigantesca revelação para o público ocidental, por um magnífico Issey Ogata.

Um convite ao diálogo sobre a espiritualidade

O século XVII foi o derradeiro capítulo do período que o historiador britânico Charles Boxer denominou de “século cristão” (1549-1650) num Japão, "a entrar numa fase decadente, com grandes lutas intestinas, antes da unificação", nas palavras da Tereza Sena, que publicou recentemente um artigo em inglês na Revista de Cultura intitulado “Em busca de um outro Japão”.

Com o fortalecimento do poder central, os jesuítas e comerciantes portugueses deixaram de contar com as rivalidades entre os  senhores feudais e em 1587 surge um primeiro édito de expulsão dos primeiros, mas exceção feita a pontuais perseguições, não é mais do que “um aviso”.

O "golpe de morte" dá-se em 1614, com um novo édito de expulsão já sob o ‘shogunato’ Tokugawa, que procurará eliminar ou controlar a influência estrangeira, levando ao abandono, segundo estimativas citadas pela investigadora, de 114 padres em pelo menos cinco barcos com destino a Macau e Manila.

Esta acrescenta que um relato coevo aponta que ficaram no país 18 padres e nove irmãos jesuítas, entre eles Cristóvão Ferreira, que chegou em 1609 ao país do sol nascente, onde viveu quase duas décadas na clandestinidade.

Com a consolidação do poder recente, um dos principais objetivos passa “obviamente eliminar” essa presença e inicialmente, recorda Tereza Sena, recorreram aos martírios como “demonstrações para persuasão pública” e “atemorização das populações”.

No entanto, tais atos surtem o efeito contrário – acabando por jogar a favor da propaganda cristã, ao mostrar a força da fé e ao proclamar heróis em nome de Deus.

“A partir de certa altura, o poder percebe que seria muito mais útil a apostasia” e, neste sentido, apura as técnicas de tortura, introduzindo a da “fossa” – que Cristóvão Ferreira terá sido um dos primeiros a experienciar, em 1633, pelo que a renúncia à fé do jesuíta português constituiu um “grande triunfo”, sustenta.

Da apostasia de Cristóvão Ferreira até à definitiva expulsão dos jesuítas e ao fim do comércio português foram meia dúzia de anos, substituídos pelos holandeses.

O número de cristãos no Japão foi calculado no início do século XVII em 370.000, segundo o historiador Gonoi Takashi, numa população estimada entre 15 e 20 milhões. Atualmente, representa 0,8% do total, o que significa que “os missionários do século XVI e XVII conseguiram fazer muitos mais cristãos do que agora”, concluiu Mihoko Oka, docente da Universidade de Tóquio.

Com Silêncio, Martin Scorsese está, porém, mais interessado em "abrir um diálogo" com o espectador e mostrar "até que ponto a espiritualidade é parte integrante do ser humano".

E em alusão ao título, sintetiza: "Vimos do silêncio e é para lá que vamos. Deveríamos aprender a sentir-nos confortáveis com isso".

Veja o trailer de "Silêncio".

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