Como um tecnocrata que dá prioridade à discrição, "Dick Cheney não era um indivíduo que procurava que fizessem um filme sobre ele", afirma Adam McKay, realizador e argumentista de "Vice", o "biopic" cinematográfico consagrado à ascensão política do controverso ex-vice-presidente de George W. Bush (2001-2009).

Mas graças a uma gripe que deixou McKay de cama durante vários dias, ele acabou a devorar um livro sobre Cheney, "que não parou de me surpreender pela forma como mudou profundamente o curso da história dos Estados Unidos", explicou recentemente na apresentação do seu filme, que estreia oficialmente nos EUA a 25 de dezembro e chega a Portugal a 14 de fevereiro.

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"Vice" já coleciona nomeações para vários prémios de cinema (lidera a corrida aos Globos de Ouro, com seus categorias) e tem fortes possibilidade de arrecadar o Óscar de Melhor Ator.

Foi, sobretudo, o trabalho de Christian Bale, irreconhecível sob muitas camadas de caracterização e com 20 quilos a mais para interpretar o político "com sinceridade", que entusiasmou os críticos.

"Encarna a essência de Cheney", resumiu a publicação Rolling Stone, enquanto a Variety descreveu como "Christian Bale captura o personagem de Dick Cheney - seco, sarcástico, falsamente aborrecido [...] - com um brilhantismo que se aproxima da perfeição".

"É uma personalidade muito forte, incrivelmente sólida, e, de certa maneira, ele entendia - talvez mais do que ninguém - como fazer funcionar as engrenagens do governo", explicou Bale sobre o ex-vice-presidente, a eminência grisalha de George W. Bush.

Encarnação da linha dura dos neoconservadores americanos, Cheney também foi secretário da Defesa de 1989 a 1993, durante a primeira Guerra do Golfo (1991).

Não apenas foi criticado pela sua política, como também pelas suas afirmações sobre a presença de armas de destruição em massa no Iraque e sua justificativa da tortura, a que chamou "técnicas melhoradas de interrogatório".

Cheney, de 77 anos, também foi suspeito de conflito de interesses: quando se candidatou a vice-presidente, em 2000, era diretor executivo da Halliburton, a segunda maior companhia petroleira do mundo, que enriqueceu graças à segunda guerra do Iraque, em 2003.

Vilão dos desenhos animados?

"Vice" mistura os episódios entre o homem de negócios e poder na Casa Branca com o jovem originário de Wyoming, bêbado e bruto, que foi expulso da Universidade de Yale.

A sua salvação aconteceu graças à esposa Lynne, vivida no filme por Amy Adams, cuja atuação também originou aplausos de muitos críticos, assim como a de Sam Rockwell, que interpreta o presidente George W. Bush, um pouco perdido nos labirintos do poder, e de Steve Carell, caracterizado como Donald Rumsfeld.

Contudo, as opiniões estão muito mais divididas sobre o filme em si.

Embora muitos tenham se mostrado entusiasmados com o trabalho de Adam McKay, o mesmo realizador de "A Queda de Wall Street" (2015), alguns críticos falam de uma visão superficial e caricatural de Cheney, convertido "num vilão dos desenhos animados", segundo a revista Time.

A principal crítica da Variety é que o filme nunca responde à pergunta de "Quem é Dick Cheney?", pelo que "o público deve contentar-se com conceitos como cobiça e poder".

No entanto, o realizador insistiu que "desde o início teve a vontade de humanizar essas personagens, de profundá-las, de entendê-las".

A mei ocaminho entre farsa burlesca e tragédia, o filme pode desestabilizar pela sua quantidade de recursos: repetição de "flashbacks", "voz off", aparições surrealistas durante a história, Cheney a dirigir-se diretamente ao espectador.

McKay "criou algo que realmente rompe as convenções [...] É necessário porque o que vemos no ecrã pode ser muito triste e traumático", argumentou Christian Bale.

Segundo Steve Carell, um dos pontos fortes deste filme é "que é muito contemporâneo, muito atual".

"Os espectadores farão, forçosamente, a conexão entre o passado e o que está agora a acontecer", assegurou o ator, sem citar o patual residente dos Estados Unidos, Donald Trump.

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