A HISTÓRIA: Petrunya, 32 anos, desempregada, vive com os pais, em Štip, na Macedónia do Norte. Ao regressar de uma entrevistade emprego infrutífera, acaba por ser arrastada para um festival religioso, em que rapazes de todo o país competem uns com os outros, cada qual tentando ser o primeiro a apanhar uma cruz atirada a um rio por um padre. O vencedor desta prova é premiado com um ano de sorte e prosperidade. Sem pensar duas vezes, Petrunya lança-se também à água.

"Deus Existe, O Seu Nome é Petrunya" está disponível gratuitamente na Filmin entre 15 e 21 de maio, juntamente com mais sete títulos, no âmbito das comemorações dos 70 anos da União Europeia.


Crítica: Hugo Gomes

Petrunya é tudo aquilo que não encontramos, habitualmente, numa heroína cinematográfica, como é dito a certa altura numa fracassada entrevista de emprego no qual subjuga-se: “Tens 32 anos, não tens experiência laboral, és gorda, feia e nem para uma queca serves.”

Esta frase destruidora é dirigida a uma mulher sem nenhuma ambição de futuro, a quem apenas é permitido coexistir num mundo dominado por homens. E é o rastilho para cometer uma provocação espontânea.

Petrunya (interpretada por Zorica Nusheva) infiltra-se numa tradição religiosa, unicamente participada por homens, de tentar apanhar uma cruz de madeira atirada ao rio por um padre, sem valor mas simbólica para aquela comunidade. Ela é a primeira a consegui-lo e o caso torna-se mediático pelo país, graças à determinação de uma repórter, que encontra a caricatura de um estado intrinsecamente patriarcal neste convertido "caso de polícia".

"Deus Existe, O Seu Nome é Petrunya" é exatamente aquilo em que a intriga se transforma: uma sátira paradoxal e de tons absurdistas de uma sociedade centrada no sexo masculino e cuja lei é absorvida pelos poderes religiosos e clericais.

Com diálogos certeiros e de fácil compreensão, a crítica exposta é percetível e talvez por isso, concisa na sua simplicidade. A realizadora macedónia Teona Strugar Mitevska consegue desbravar uma “anedota” de fins catastrofistas, submetendo os diferentes poderes da sociedade à sua ridícula forma perante esta "heroína" Petrunya e o seu ativismo instintivo.

Apesar disso, esta "bolha" prestes a implodir é traída pela sua própria ambição e grandiloquência, conformando-se com um terceiro ato apressado que tenta desesperadamente dar um final digno a Petrunya, sem noção das suas consequências. E com isto, o filme, que nunca esconde a compaixão que sente por ela, perde o tom provocatório.

Também existem momentos de subtileza estética de "Deus Existe, O Seu Nome é Petrunya", em oposição aos planos desfigurados da nossa menosprezada “deusa” nos seus momentos de fraqueza. É a prova da força gradualmente crescente do novo cinema dos Balcãs e a sua emancipação de passos curtos. Para quem não conhece, vale a pena começar por aqui para descobri-lo.

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