A HISTÓRIA: Depois de salvar Arturo, um jovem herdeiro de uma família da classe média industrial, de um confronto, o marinheiro Martin Eden é convidado a visitar a família. É aí que conhece Elena, a bela irmã de Arturo, apaixonando-se por ela à primeira vista. A culta e requintada jovem mulher torna-se não só o amor de Martin, mas também um símbolo do status social a que ele aspira. À custa de esforços enormes e ultrapassando os obstáculos que a sua origem modesta representa, Martin persegue o sonho de se tornar escritor e - sob a influência do intelectual amigo mais velho Russ Brissenden - envolve-se em meios socialistas, entrando em conflito com Elena e o seu mundo burguês.

"Martin Eden": nos cinemas a 2 de julho.


Crítica: Daniel Antero

Sem educação, Martin Eden (Luca Marinelli) devaneia por trabalhos árduos, sobrevivendo pelas ruas de Itália. Quando se apaixona por Elena (Jessica Cressy), a filha de uma família abastada, esta torna-se a sua musa, cativando-o a instruir-se, a ser melhor, a ser merecedor de um lugar à mesa.

Influenciado pelos livros de Herbert Spencer, logo começa a escrever, com tristeza, raiva e paixão, marcando o seu cunho calejado. Quando o jornalista e socialista Russ Brissenden (Carlo Cecchi) reconhece a sua fúria e rebelião genuína, acolhe-o, manipulando-o para o elevar no movimento político. Algo que Martin prontamente renega, erguendo-se a ele próprio como um individualista que quer abalar as elites com a sua palavra.

Adaptando "Martin Eden", do escritor norte-americano Jack London, o realizador Pietro Marcello desloca geograficamente a narrativa do livro de Oakland para Nápoles e a sua época para uma amálgama de referências do século XX: a moda transmuta-se entre os anos 30 e os anos 70, a tecnologia é dos anos 50 e a política tem ecos de várias fardas, bandeiras e guerras. É uma rapsódia de momentos, uma poesia palpável de citações, declamações e discursos inflamados, embrulhados na crueza da película 16mm.

Com estéticas da "Nouvelle Vague", dos filmes italianos do final dos anos 60 e do cinema norte-americano independente dos anos 70, livre e realista, Marcello dá ainda corpo ao pensamento sócio político e filosófico de Martin Eden recorrendo a excertos documentais, que servem como ponto de vista subjectivo e introduzem um carácter etéreo ao filme e ao contexto da sua escrita, da qual temos pouco acesso.

O que sabemos é que, através de um tumulto interno, Eden sai de um casebre para um palacete, onde se isolará de alma esgotada, perdido nos seus delírios.

Este salto para a alta sociedade cria-nos distanciamento para com o terceiro acto de "Martin Eden", filme e da personagem, de quem acompanhámos a vida errática entre trabalhos brutos, artigos negados pelas revistas, o amor assolapado por Elena. Agora vemo-lo inebriado dele próprio, vivendo do tremendo sucesso, onde a ira e o proletariado ficaram pelo caminho e o desalento e a falta de desejo tomam conta do seu ego. Como ele próprio, temos dificuldade em reconhecê-lo.

O que nos une em constância a “Martin Eden” é Luca Marinelli, actor italiano, pronto para seguir rumos "hollywoodescos" que tem uma interpretação tremenda. A força dos seus olhos azuis, a ingenuidade e a sinceridade valeram-lhe o prémio Coppa Volpi, no Festival de Veneza de 2019, sobrepondo-se a Joaquin Phoenix e ao seu Joker.

Com o seu carisma e a mestria de Pietro Marcello, este retrato envolvente, intelectual e poético, de estética expansiva, é um dos grandes filmes de um ano que, felizmente, não nos rouba a oportunidade de vê-lo onde merece: numa sala de cinema.

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